Reavivar a esperança dos pobres

Dom Reginaldo Andrietta

O número de pobres cresce rapidamente no Brasil atual; o número de apostadores em loteria, também. Se a conquista de condições dignas de vida pelo trabalho decente, é difícil, muitos optam pela “sorte”. Poucos escapam à tentação de fazer uma “fezinha”. Há os que só querem “dar um jeitinho na vida”, como, também, os obsessivos em ser “milionários”. Na realidade, grande parte nutre a ilusão de soluções mágicas, finalmente, individualistas.

Enquanto os problemas sociais crescem, muitos pensam que suas soluções dependem de cada um, sem ações coletivas. O Estado, governado por neoliberais, reduz investimentos sociais, “lavando cada vez mais suas mãos”. A carga tributária que pesa sempre mais nos ombros dos cidadãos de baixa renda, bem como dos pequenos e médios empreendedores, se converte mais em pagamento da dívida pública do que em desenvolvimento social e econômico.

A situação social do Brasil é “explosiva”, tanto quanto de outros países da América Latina e do Caribe, cujas manifestações populares maciças, nas últimas semanas, estão surpreendendo o mundo. Se o Brasil continuar na lógica da concentração de riquezas para quem já tem muito, degradando-se socialmente, não teremos surpresas. O risco de convulsão social neste país, que tem aversão à pobreza, mas, também, medo dos pobres, é iminente.

Muitos temem a possibilidade dos empobrecidos desta terra recusarem o “lixo” no qual estão sendo jogados. Aliás, o medo aos pobres se tornou tão evidente, que se lhe atribui, agora, um conceito. Trata-se de “aporofobia”. Esse termo foi criado por Adela Cortina, catedrática de Ética e Filosofia Política da Universidade de Valência, Espanha. Ela o explica em seu livro, publicado em 2017, “Aporofobia, a rejeição ao pobre: um desafio para a democracia”.

A professora Adela criou esse termo ao notar que imigrantes com qualificação profissional e intelectual, bem como investidores estrangeiros, são sempre “bem-vindos”, e que imigrantes pobres são discriminados. A xenofobia, que é aversão a estrangeiros, embora se mostre como uma questão étnica, demonstra uma criminosa discriminação social, que ela conceitua pela junção dos termos gregos áporos e fobia, correspondentes a pobre e medo.

Amós, exímio representante da profecia bíblica, oito séculos antes de Cristo, já denunciava os crimes cometidos pelos que “pisam, sobre o pó da terra, a cabeça dos pobres” (Am 2,7). Cristo, muito além de sua compaixão para com os pobres, se mostra presente neles. Ele próprio, conforme o capítulo 25 do Evangelho segundo Mateus, sobre o juízo final, apresenta a solidariedade frente à condição de pobreza como uma condição fundamental para a salvação.

A salvação é dádiva de Deus a ser, pois, correspondida na forma de misericórdia. Ser misericordioso significa ter um coração sensível a quem vive na miséria; em decorrência, comprometer-se corajosamente com a justiça de Deus e seu Reino (cf. Mt 6,33), o que implica construir relações sociais solidárias. A solidariedade é um dos princípios fundamentais da Doutrina Social da Igreja, a ser sempre melhor conhecida, valorizada e colocada em prática.

A Jornada Mundial dos Pobres, lançada pelo Papa Francisco, em 2016, no Ano Santo da Misericórdia, a ser realizada este ano, no dia 17 de novembro, culmina a Semana da Solidariedade, promovida pela Igreja no Brasil, com o objetivo de “evidenciar e fomentar a cultura da solidariedade em prol das pessoas em situação de exclusão social”. Participemos ativamente nessa Semana da Solidariedade, reavivando por meio dela a esperança dos pobres.

Jales, 31 de outubro de 2019.


Dom Reginaldo Andrietta é Bispo Diocesano de Jales (SP).

Notas

Justiça e Paz

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