No horizonte há Páscoa…

Joana Eleuthério *

Rezando as circunstâncias que nos fazem dizer a frase de Jesus: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?”

Para Jesus, a relação de Deus conosco se situa numa dimensão mais profunda. Devemos deixar de interpretar como atuação de Deus aquilo que é próprio das forças da natureza ou consequência da maldade e violência humanas.  Nenhuma desgraça que possa nos alcançar devemos atribui-la a um castigo de Deus.

Padre Adroaldo Palaoro, sj

O ano mal começou, ainda não se completou o primeiro trimestre, já vivemos ou tivemos notícias de situações que nos fazem ser enormemente tentados a imaginar que Deus está de licença-prêmio antes que façam desaparecer mais esse direito dos trabalhadores… Brincadeiras à parte, vivemos uma situação angustiante, principalmente, para quem se preocupa com a meninada que está crescendo em nossas famílias e em todo o mundo.

Em muitas situações somos como a figueira que ficou “três anos” sem dar frutos. Eu mesma já me senti ressequida e incapaz de renascer para impedir que as folhas começassem a secar e a cair. Quando eu gritava, “meu Deus, meu Deus por que me abandonastes”, eu rezava, eu pedia socorro, mas não exatamente querendo reclamar ou culpá-Lo por tudo que estava acontecendo comigo, embora estivesse me sentindo desnorteada e sem capacidade de compreender. Outras vezes, principalmente em minha adolescência, eu repetia os versos de Castro Alves:

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?!

(Navio negreiro)

 

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em que estrela tu te escondes
embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde, desde então corre o infinito…
Onde estás, Senhor Deus?…  

(Vozes d’Àfrica)

 

Mesmo nas noites mais escuras, a Luz reaparecia ainda nas madrugadas frias – ou tórridas – só para me dizer que Ele esteve sempre presente, do meu lado. Era só ficar quietinha e prestar atenção bem lá no fundinho de minha interioridade silenciosa.

Há tantos momentos e tantas situações em que gritamos aos Céus como o salmista: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes? E permaneceis longe de minhas súplicas e de meus gemidos?” (Salmo 22/21) Como é duro assistir o abandono dos mais pobres nas cidades, nos morros e nos grotões do Brasil; os jovens sendo desviados pelo mundo do crime de diversas naturezas, matando seus iguais ou sendo assassinados por eles… E ainda as pessoas sem nenhuma assistência social – desempregadas, subempregadas, pais e mães de família vendo seus filhos morrerem ainda na primeira infância por desnutrição e sem a atenção primária e fundamental da saúde. (Nunca o trabalhador foi tão subestimado como está acontecendo hoje.)jesus-venzo

No Brasil, além da triste estatística de líderes comunitários assassinados, que cresce a cada ano, temos as centenas de irmãos e irmãs que morreram sufocados sob a lama da Vale que despencou sobre eles; mais de uma dezena de adolescentes que morreram em um incêndio terrível no alojamento de um rico clube futebolístico do Rio de Janeiro, a tragédia na escola de Suzano etc.

Não vamos ficar aqui a enumerar tudo que tem acontecido e que nos tenta fazer crer que Deus nos abandonou, como o demônio nos quer convencer, tal como fez com Jesus para que ele desistisse de sua missão em obediência ao Pai. O espírito maligno, qualquer que seja seu nome, faz o mesmo com cada um de nós. Porém, como disse Marcel Domergue, “Deus não permite nada, em absoluto; não permite nem proíbe. Deus simplesmente nos prescreve o amor, amor pelo qual chegaremos à sua semelhança”, porque a justiça de Deus não é a que pensamos ou imaginamos. Definitivamente não é, precisamos ser capazes de perceber que “a questão determinante para os cristãos está em buscar a Deus e crer na sua transcendência a partir da solidariedade com as vítimas, com os crucificados deste mundo e com todos os que necessitam calor humano, compreensão, tolerância, companhia e carinho” (Adroaldo Palaoro, sj). Ou estaríamos nós entre aquelas pessoas deste texto de Lucas (9,1-5), que acreditavam que já estavam inteiramente convertidas e sem pecados, questionando a Jesus sobre o porquê daquelas mortes tão desgraçadas? A resposta que Ele deu derruba por terra aquela visão de que sofrimentos, desgraças, doenças são castigos de Deus para as pessoas que pecaram. Jesus, em outra ocasião, já tinha deixado isso muito claro, quando lhe perguntaram porque o cego nascera cego, se seria culpa dele ou dos pais. Com poucas palavras, Ele fechou aquela questão: “Não foi ele e nem seus pais, ele nasceu assim para que na vida dele se manifeste a maior glória de Deus.” (João 9,3)

Dessa maneira, desfaz-se qualquer equívoco – o problema não está no pecador e nem em Deus – que nunca está ausente porque é o eterno presente, como tive oportunidade de ler e meditar em um belo texto na semana passada. O Pai assiste a tudo. E como Pai Misericordioso espera e se alegra com a nossa alegria e se entristece com a nossa tristeza. Ele acredita que saberemos ser responsáveis em nossas famílias, em nosso trabalho, nos momentos de lazer, junto às nossas comunidades e que saberemos zelar pelo Reino que Jesus veio fundar entre nós e que nos entregou na sua despedida, quando disse: “Ide a todo mundo e proclamai o Evangelho a toda criatura.” (Marcos 16,15)

Neste evangelho do terceiro domingo da Quaresma, vejo que Jesus, conhecendo o coração das pessoas que lhe questionaram sobre os acontecimentos narrados – o assassinato brutal de galileus enquanto ofereciam sacrifícios, que tiveram o próprio sangue misturado ao das oferendas e a morte de outros dezoito na queda da torre de Siloé, lembrou-lhes de que não somos menos pecadores do que aqueles e que todos necessitamos trilhar o caminho da conversão para que tenhamos vida e vida em abundância. Jesus dialoga no primeiro momento, mas depois Ele conta a parábola da figueira (Lucas 9,6-9), ilustrando bem o quanto Jesus é bom e compassivo e que nós também devemos ser. Na parábola, o Senhor seria Deus e o agricultor cuidadoso seria o próprio Jesus, que não desiste da figueira e pede ao seu Senhor um pouco mais de tempo para cuidar, adubar e regar a figueira para que ela volte a dar frutos.

O Bom Pastor não desiste de nós em nossos períodos de aridez e esterilidade, ele cuida da gente até que percebamos e nos sintamos realmente amados pelo Filho e pelo Pai – “Quem me conhece, conhece o Pai, porque o Pai e eu somos um.” No horizonte, há Páscoa – o Pai misericordioso espera-nos com ansiedade e alegria para tomarmos parte da grande festa da Ressurreição e glória de Filho Amado.

Nossa tarefa é nos transformar em bons vinhateiros para cuidar da vinha do Senhor e também daquela solitária figueira no meio da vinha, convidando outros mais que nos ajudem a salvar e a cuidar dela, adubando, podando e aguando … Vamos ver que ela dará frutos de novo, sejamos bons jardineiros do Senhor. Precisamos fazer exatamente isso neste momento. Crer na vida que nos faz sair de nós mesmos, desapegarmos de nossas crenças, de nossos bloqueios e de nossas vaidades para que também nós possamos dar bons frutos. Também como disse Marcel Domergue, o fruto é alguma coisa que é chamada a se separar da árvore – é uma oferenda ao futuro da própria árvore, que vai se multiplicando e expandindo a vida. Como acontece conosco, nos impulsionando para fora de nós mesmos e isso é o que nos salva da morte, dá sabor à vida e aos relacionamentos.

Em Jesus, “a nossa liberdade de seres criados deve escolher tornar-se uma só com a liberdade divina.” Na minha pequena fé, eu peço essa graça que me levará a experimentar verdadeiramente a liberdade de fiel seguidora do Filho e humilde colaboradora na construção do Reino do Pai, o nosso Pai todo poderoso e rico em misericórdia. Que as minhas palavras consolem e animem minhas irmãs e meus irmãos que rezarem comigo essa oração meio titubeante de alguém que, na enorme fragilidade física, continua a seguir os passos de Jesus. Ele é amoroso e cheio de empatia, diminui o ritmo para que eu não fique para trás. Amém!

 


* Joana Eleuthério é graduada em Letras. servidora pública aposentada da Secretaria de Estado de Planejamento, Orçamento e Gestão do Distrito Federal.

 

Imagem: Gesù sulla CroceFratel Venzo, SJ, 1970.

 

 

Espiritualidade Justiça e Paz

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Caminhante sem nenhuma linearidade e com variados interesses.

2 comentários Deixe um comentário

    • Orlando, que bom que você se sentiu bem fazendo a leitura orante desse texto. Suas palavras apontam a graça alcançada: “Que as minhas palavras consolem e animem minhas irmãs e meus irmãos que rezarem comigo essa oração…”. Deus nos abençoe, conforte e ilumine! Grande abraço.

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