Como ter uma atitude semelhante à de Maria?

Joana Eleuthério *

A bondade e a graça hão de acompanhar-me
todos os dias da minha vida, eu habitarei
na casa do Senhor para todo o sempre.
Sl 23, 6

 

Rezando Lucas 1, 26-38

Duas qualidades que nos desarmam completamente — a humildade e a simplicidade — tornaram possível à Maria acolher a missão e a graça anunciada pelo anjo Gabriel… Sempre que contemplo essa cena volto para uma zona rural no interior de Minas onde nasci e vivi minha infância. Somente lá consigo imaginar essa Maria menina, bela e com roupas muito simples sendo surpreendida pelo anjo em uma manhã de sol muito quente.

Filha obediente, talvez ela estivesse varrendo o quintal com uma vassoura de alecrim do campo a pedido de sua mãe. O cheiro do alecrim misturado ao cheiro da poeira levantada pela vassoura formava uma pequena nuvem, que somada à intensa claridade do sol quase cegava a menina quando ela tentava ver algo mais longe, na pequena serra do fundo da casa ou na estrada onde rangiam os carros de boi daquela linda manhã.

Tentando ampliar e expandir o sentido de realidade da cena contemplada, transporto-me para a Galileia, ainda no século primeiro, na pobre e pequena cidade da Nazaré de José e Maria, onde Jesus nasceu e foi criado. Maria é ainda quase uma menina. Muito bonita, serena, sorridente e que estava prometida a José, um homem bom – bem mais velho do que ela.

Na timidez própria daquela idade, reforçada pela educação que as mulheres de sua classe social recebiam em uma sociedade machista, a menina Maria naturalmente assustou-se ao ouvir a saudação do anjo e quase deixa cair a moringa de água que acabara de buscar na pequena fonte ali pertinho de casa. Mas ele tranquilizou-a: “Não tema, Maria. Você foi escolhida e abençoada com a graça do Senhor.”

Ela então perturbou-se ainda mais, sem conseguir compreender o significado de tudo aquilo que ouvia… O anjo não lhe deu tempo para perguntas, foi logo explicando.

— Maria, você será mãe de um menino que receberá o nome de Jesus. Ele será chamado filho do Altíssimo, o Senhor Deus dará a ele o trono de Davi porque reinará eternamente na casa de Jacó, o Reino dele nunca vai acabar.

Ainda meio assustada, talvez envergonhada, Maria perguntou ao anjo: “Como isso vai acontecer, não conheço homem nenhum?”

E o anjo, tranquilizando-a, disse meio sorrindo: “Maria, fique tranquila, o Espírito Santo virá visitar você quando você será envolvida pela força do Altíssimo. É por isso que o seu filho será conhecido como o filho de Deus. Sabe que a sua prima Isabel, já na velhice, também terá um filho? Ela já está no sexto mês da gravidez. Como pode ver, para Deus nada é impossível.”

Maria iluminou-se, sentindo-se tranquila e confiante: “Sim, eu serei a mãe desse menino, meu espírito está radiante, eu quero que tudo aconteça de acordo com a vontade daquele que nos gerou a todos.”

O anjo desapareceu e Maria continuou ali pensativa, quietinha aguardando sua respiração voltar ao ritmo normal, receando que sua mãe percebesse algo e perguntasse alguma coisa que, por enquanto, ela só queria guardar e meditar em seu coração até compreender melhor.

Menina Maria

No meio dessa contemplação, me vem a imagem de tantas marias meninas de hoje nas cidades do mundo. A cena que vejo é a mais comum nesses nossos tempos. Meninas sempre agarradas a seus celulares ou notebooks, seguidoras dos mais diferentes youtubers – para o bem e para o mal. De repente, dá uma pane no aparelho. Tela escura como se estivesse desligado, mas sem responder a nenhum comando… “What´s wrong? droga!”, grita desesperada a menina maria dos nossos grandes centros urbanos em pelo século XXI e internet 4.0. Mas novamente, de repente, a tela se abre e aparece, falando com ela, o anjo Gabriel.

Ainda no meio dessa contemplação maluca, ouço o ruído do velho portão de casa se abrindo, então me coloco de pé no meio da sala. Já é noitinha, acendo a luz e percebo que a família está retornando para casa. Do trabalho, da escola, da vida lá fora… E tudo me desperta e lembra que também eu sou chamada a uma missão especial no difícil contexto da enigmática vida atual.

E já me movimentando dentro de casa para preparar um lanche para a turminha que acabou de chegar, também me vêm imagens das meninas marias de todas as nossas periferias – nas cidades e no campo. Maltrapilhas, abusadas de muitas maneiras, carentes de tantos cuidados… Mas, repentinamente, com o sol a pino sobre suas cabeças, realizando atividades inadequadas para a fragilidade da tenra idade, talvez famintas, o anjo lhes apareça para trazer um recado dos céus. Elas perderiam os sentidos com certeza.

Por vezes, tão perturbada como Maria, sem compreender tanta coisa a minha volta, só consigo rogar pela graça de ter qualidades semelhantes às dela, para também acolher a mensagem dos anjos e, sem titubear, dizer ‘sim’ aos desafios do meu cotidiano. Que ela interceda por mim e me transmita a coragem e a serenidade necessárias para levar adiante o projeto de Deus para a minha vida, com gratidão, responsabilidade amorosa e confiança inspirada nos cuidados que me chegam do alto.

 

São João del Rei, 22 de agosto de 2018.

 


Na imagem, selfie de Maria Luisa Eleutério Mundim (Malu Eleutério, como ela prefere).

* Joana Eleuthério é analista de Políticas Públicas e Gestão Governamental da Secretaria de Estado de Planejamento, Orçamento e Gestão do Distrito Federal.

Comentário ao Evangelho Espiritualidade

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Caminhante sem nenhuma linearidade e com variados interesses.

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