São Maximiliano Kolbe: um mártir de Auschwitz

Dalmo Coelho *

Até onde o seguimento de Jesus pode nos levar? Por quais caminhos nos conduz o Senhor? Até que ponto estender a mão a quem precisa? Essas e muitas outras perguntas devem ter passado pelos pensamentos do Frei Maximiliano Kolbe em sua caminhada.

Maximiliano Kolbe, nasceu Raimundo em 1894, foi criado numa cidade na Polônia. Era o segundo, dos cinco filhos de Júlio Kolbe e Maria Dabrowska, operários, tecelães e membros da ordem terceira franciscana. Cresceu em um bairro simples, mostrou-se um estudante inteligente e dedicado e teve uma experiência mística com a Virgem Maria logo na adolescência que influenciou toda sua trajetória. Aos 13 anos, ele e seu irmão mais velho, Francisco, resolvem se juntar aos frades menores.

É admitido no noviciado em 1910 (após quase desistir quando recebeu a notícia que seu irmão caçula, José, também queria morar no convento), em 1914 faz os seus votos e em 1918 é ordenado sacerdote sob o nome Maximiliano “Maria” Kolbe. Seu desejo era “conquistar o mundo inteiro a Cristo sob a mediação e proteção de Nossa Senhora”: para isso cria uma revista, publica diários e funda a Milícia da Imaculada. Chega a construir um convento, em 1929, “marcado pela simplicidade, pobreza e caridade” perto de Varsóvia.

Viaja o mundo a serviço da fé e da caridade trabalhando, em especial, no apostolado da comunicação. Retorna à Polônia em 1936, por conta de alguns problemas de saúde e, em 1938, cria a Radio Niepokalanów (SP3RN). No ano seguinte, inicia-se a 2ª Guerra Mundial e a Alemanha invade a Polônia: Maximiliano e uns poucos frades organizam um hospital no convento e são presos por alguns meses. Recusa-se a assinar o Deutsche Volksliste, documento nazista que lhe garantiria direitos por conta de sua ascendência germânica. Segue trabalhando com os feridos e esconde milhares de judeus da intolerância e da repressão.

É descoberto pela Gestapo em fevereiro de 1941: o mosteiro é fechado e Maximiliano é preso novamente junto com mais 4 frades. É transferido para Auschwitz em maio do mesmo ano como o prisioneiro nº 16670. Poucos meses depois, três presos conseguem escapar e o subcomandante Karl Fritzsch determina, em represália, que dez detentos fossem levados a uma cela subterrânea sem luz, água ou comida até que os fugitivos fossem encontrados.

Todos os prisioneiros são perfilados no pátio e dez pessoas são escolhidas a esmo. Um dos homens selecionados chamava-se Francisco, que gritou: “Minha esposa! Meus filhinhos!”. Segue o relato do que fez Kolbe nesse momento, descrito no livro de Sergio Lorit:

« Estava calmo e sorridente, com aquele olhar doce; alto, até o ponto que a magreza o tornava esguio; pálido, que parecia diáfano; e a cabeça ligeiramente inclinada à esquerda. Disse, com voz quase sumida: «Queria morrer no lugar de um daqueles», e fez um sinal com a mão na direção do grupo dos dez condenados ao bunker, cercados pelos verdugos. No olhar possesso de “Cabeça de mastim” [Lagerführer Fritsch] passou a sombra do espanto. Aquilo que ouvira superava a tal ponto a sua capacidade intelectiva que teve, por alguns momentos, a dúvida de sonhar. […] “Warum?” (Por quê?). […] “Já sou velho e não sirvo para nada. A minha vida para nada mais se aproveita…”. “E por quem você quer morrer?” balbuciou Fritsch cada vez mais pasmado. “Por aquele. Tem mulher e crianças…” e apontou com o dedo, além da cerca dos capacetes de aço dos SS, o sargento Francisco Gajowniczek, ainda soluçando com as mãos apertadas à fronte. “Mas quem é você?” berrou Fritsch. “Um padre católico” »

Na cela, Maximiliano Kolbe confortava e cuidava dos outros nove presos todos os dias: lembrava-lhes de sua mãe no céu. Esperançava que os fugitivos seriam encontrados e que eles sairiam dali. Rezavam juntos, cantavam e animavam-se mutuamente. Até os presos de celas vizinhas participavam das celebrações, o que impressionou os guardas nazistas. Após duas semanas, restavam apenas Kolbe e outros três prisioneiros que receberam uma injeção letal para liberar o espaço. Era 14 de agosto de 1941.

São Maximiliano Kolbe (1894-1941)

Kolbe foi beatificado por Paulo VI em 1971. Presentes à celebração estavam Francisco Gajowniczek e sua esposa Helena. Foi canonizado por João Paulo II em 1982 e é o santo padroeiro dos radioamadores e das radioamadoras. Maximiliano Kolbe é também o patrono da província franciscana com sede em Brasília (OFM). Francisco Gajowniczek, que passou o resto da vida cumprindo o seu “dever de divulgar o heroico ato de amor de Maximiliano Kolbe”, veio a falecer em 1995, na Polônia, aos 93 anos. Está sepultado no cemitério do convento de Niepokalanów.

 

Vidas pela Vida!
Vidas pelo Reino!

 


* Dalmo Coelho é engenheiro, peregrino e grapiúna.

Espiritualidade Hagiografia

3 comentários Deixe um comentário

  1. História lindíssima de amor ao próximo. Amor que é levado até as últimas consequências.
    Que São Maximiliano Kolbe nos inspire neste amor fraterno e sem limites.
    Amém.

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  2. Conheci São Maximiliano Kolbe, meados dos anos 90, por meio de uma amiga, revisora dos artigos da revista Milicia da Imaculada. Naquela ocasião, impressionou-me a sua história no campo de concentração e o seu martírio.
    Ele viveu a plenitude do mandamento do amor: deu a sua vida pelo irmão.

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