Sábado Santo: um frio sepulcro nos interpela

Pe. Adroaldo Palaoro, SJ

“A partir dessa hora, o discípulo a recebeu em sua casa”

Jo 19,27

O Sábado Santo é o dia do grande silêncio: “Um grande silêncio reina hoje sobre a terra; um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio porque o Rei dorme; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque Deus adormeceu segundo a carne” (de uma antiga homilia de Sábado Santo). É o silêncio sepulcral. Jesus morreu e foi sepultado. Os seus amigos provaram o fel amargo da desilusão. Os evangelhos afirmam que todos os discípulos o traíram; deixaram tudo para o seguir, confiaram-lhe as suas vidas e, afinal, o messianismo de Jesus reduziu-se a um sepulcro frio, escuro e silencioso, como todos os túmulos da terra.

Em todo caminho espiritual é preciso passar pela “noite”, pela “ausência”, pelo “silêncio”, para amadu-recer. É inevitável experimentar, durante algum tempo, alguma forma desconcertante de sentir a presen-ça-ausência de Deus.

A terrível “noite escura” do Sábado Santo corresponde a um incontestável estágio espiritual, como dura, mas inevitável “passagem” (Páscoa) para a Luz do Domingo.

Só atravessando o silêncio, a “Noite Amarga” se transforma em “Noite Amável”.

Um silêncio entendido como outra forma de presença de Deus.

O silêncio de Deus deve ser respeitado, pois a Deus lhe dói a morte de seus filhos e filhas; o Pai não estará fazendo luto por seu Filho e por suas criaturas?

  • Não será que o silêncio do Sábado Santo supõe o direito de Deus se calar?
  • Que Deus não tem direito de guardar silêncio?
  • Quem somos nós para exigir de Deus que nos esteja falando continuamente?

Se não oramos a partir desse silêncio, é porque ainda não mergulhamos no mistério do Amor compassivo.

Muitas vezes negamos a Deus o que de mais humano há em nós: o poder fazer comunidade compassiva e solidária, compartilhando a dor e o luto.

O Pai está de luto; toda a natureza está de luto; em silêncio, ela acolhe a semente do Corpo do Verbo, na esperança de germinar Vida plena. A Terra, mais uma vez, oferece casa e abrigo ao Corpo do Crucificado. Aquele que morrera “fora dos muros da cidade” encontra moradia no seio da mãe-terra.

O Sábado Santo, portanto, não é o mutismo de Deus, mas seu Silêncio, ou seja, a ação oculta de Deus estendida no tempo, quer na vida, quer na morte; Deus nos fala em sua mudez.

O silêncio do Senhor nos move a procurar, a escutar, a enxergar… O silêncio do sepulcro nos interpela.

Iluminados pelo dom da fé, sabemos que, depois do silêncio, renasce a Palavra. O que parecia o fim, na realidade aquele silêncio era o mesmo que precedeu a Palavra criadora: “Faça-se luz”. E do “caos da escuridão” surgiu a luminosidade do “cosmos”.

O silêncio de Deus é fecundo. É no tempo silencioso que a semente se torna fruto e o ser humano se torna pessoa. O silêncio permite transformar a morte em vida. Aquele túmulo, afinal, era uma fonte pujante de vida e de alegria. Aquele lugar, aparentemente escuro e vazio, veria uma luz que o mundo inteiro não pode conter. Por isso, para nós, as experiências do silêncio de Deus serão sempre um convite à fé e à esperança.

Não há razão para o medo, pois o silêncio esconde a vida e a consolação de Deus.

O enfoque dia sabático está no fato de que é preciso esperar no silêncio e na calma. Às vezes queremos passar da morte à vida sem espaços de esperas.

Sabemos que a vida da Igreja, como também a nossa vida pessoal, é feita de longos sábados santos, nos quais nem a dor da Paixão nem o consolo da festa Pascal marcam significativamente nossos dias e nossas noites, mas simplesmente a dura e paciente espera, na fé mais despojada, de um Senhor, que se faz esperar tanto que parece que já não vai chegar mais.

É o Sábado Santo de um credo pascal que sabe que amanhã florescerá a messe. Submergido no sepulcro do Senhor, espera-se simplesmente.

Ao sentir a própria incapacidade de levar adiante a exigência do Evangelho, cada um(a) se apresenta no sepulcro do Senhor de onde pode irromper a força transformadora da manhã da Ressurreição.

O Sábado Santo é um dia sem liturgia, em silêncio, não passa nada, não sucede nada, recorda a solidão do sepulcro, a tristeza das mulheres e dos discípulos, a desilusão diante do fracasso.

“O Rei dorme”, comenta uma antiga homilia sobre o Sábado Santo. O povo canta o “Shabat mater”, acompanha a Virgem dolorosa, espera com ela, em silêncio, a aurora pascal.

Da escuridão da morte do Filho de Deus brota a Luz de uma esperança nova: a luz da Ressurreição reflete-se no rosto de Maria. Nossa amizade e devoção a Maria da esperança, a transparência feminina do Espírito, nos mantém no ritmo da espera.

Segundo Santo Inácio, no percurso dos Exercícios Espirituais a Paixão termina na casa de Nossa Senhora (EE 208). É em sua casa que se abrirá também a semana da Ressurreição.

Santo Inácio segue aqui uma tradição de sua época, onde se aceitava como fato revelado que a primeira aparição do Ressuscitado foi à Virgem Maria (EE 299).

A Escritura não nos apresenta nenhum relato de aparição a Maria. Mas, segundo Inácio, mesmo que a Escritura não o diga, essa aparição é evidente. Talvez a mesma Escritura tenha dado por suposto, já que o caso de Maria é diferente: aqui Jesus não teve que educar a fé de sua mãe. Ele a encontrou em atitude de espera permanente. Sua fé tinha sido firme e por isso a tradição situa o início da vida da Igreja em torno a Maria, e Maria como aquela que congrega e apoia a fé conturbada dos discípulos.

Porque ela soube estar com o Crucificado, pode ver o Ressuscitado.

Junto a Maria, é preciso considerar o Sábado Santo como um tempo de luto e pranto: depois da dor intensa da Sexta-feira Santa dá-se lugar a uma dor silenciosa, contida, como a terra que vai se empapando até suas entranhas com a água caída torrencialmente sobre a superfície.

O que aconteceu na superfície da terra na Sexta-feira Santa, acontece nas profundezas da morte no Sábado Santo, para que no Domingo da Ressurreição sejam resgatados ambos os acontecimentos.

É preciso saber acolher este silêncio surdo, que marca a passagem entre duas experiências intensas: a Sexta-feira de dor e o Domingo de Ressurreição.

No sepulcro, Jesus se faz solidário com toda a morte humana. E é preciso esperar com Ele. É preciso esperar em nossos projetos e sonhos, na libertação dos povos, em uma nova humanidade.

Em nossas vidas teremos muitas sextas-feiras santas de dor e dias de Páscoa, mas, teremos muito mais sábados de espera.

O ser humano que espera não tem certeza, não fica seguro, não está satisfeito. Mas a esperança tem fundamento; não é uma ilusão e nem uma utopia; não é um sonho impossível e nem uma lembrança irrecuperável; não é só futuro, mas permanece, disfarçadamente, presente; não é uma morada, mas um sentimento sempre inédito. A esperança evita tropeçar no fracasso, no desânimo, na apatia e no silencioso desespero. Ela se acende à noite, vence na impotência; começa na limitação; é ousada na fragilidade.

A esperança é caminho e meta, posse e dom, destino e encontro, antecipação e cumprimento, expectativa e busca, risco e proteção, nó e liberdade.  A esperança é certa, mas não dá “garantias”.

Arrancados ao silêncio dos nossos túmulos, também nós podemos gritar como Maria Madalena no primeiro dia de Páscoa: “Vi o Senhor!” Este grito, que nos enche de esperança, rasgará todo o silêncio, e ecoará por toda a eternidade.

A força da esperança está oculta precisamente na sua impotência. A Cruz permanece em seu lugar, mas o sepulcro fica vazio para sempre! É Ressurreição: vida plena antecipada.

Texto bíblico:  Jo 19,25-27

[Bíblia Paulus on-line]

Oração: contemplar Maria em sua “segunda Anunciação”; na “primeira Anunciação” deu-se o início da vida de Jesus. Agora, essa Vida se revela a ela como Vida definitiva.

Que Maria eduque nossa confiança; que ela nos encha de esperança!


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