“Em tua casa vou celebrar a Páscoa…”
Pe. Adroaldo Palaoro, SJ
Semana Santa Orante 2026
Quarta-feira da Semana Santa
Tomada a decisão de “subir a Jerusalém”, começamos a descobrir, contemplando Jesus, qual pode ser o preço da fidelidade no seguimento.
A contemplação dos “mistérios” da Paixão acontece numa atmosfera de grande intimidade; ela vem a ser como um acompanhar Jesus em seu caminho de entrega radical; quem contempla não pode permanecer reduzido a um simples espectador, mas “entrar” no caminho de Jesus, apropriar-se dos “mistérios”.
A contemplação nos conduz a uma oração de união: querer unir-nos a Ele, estar com Ele em silêncio, diante de sua fidelidade, mistério que nos ultrapassa.
Não podemos desligar a ação de Jesus na Última Ceia do conjunto da sua vida, da sua ação, da sua missão: o anúncio e a construção do Reinado do Pai.
A Última Ceia recebe a sua significação a partir do conjunto desta vida e ação de Jesus. Ela é o ponto dechegada desta Vida comprometida com a vida; ao mesmo tempo, ela é antecipação de tudo o que vai ocorrer na Paixão: entrega radical da Vida.
Segundo os relatos dos Evangelhos, durante sua vida pública, Jesus transitou por muitas refeições, participou de muitas mesas (especialmente com os pobres e pecadores) e, para culminar, organizou com seus amigos mais próximos, uma ceia de despedida e de esperança; deixou uma “mesa” como marca dos seus seguidores: mesa da partilha do pão e da inclusão, mesa da festa e da comunhão.
Ali, ao partir o pão e passar o cálice, pediu que se recordasse d’Ele toda vez que comessem ou bebessem juntos, reavivando a esperança de construir o mundo que todos esperavam. Eles se transfigurariam e o mundo se transformaria em Comunhão toda vez que este gesto fosse repetido.
É no interior de uma casa e em torno a uma mesa que os seguidores de Jesus se constituem como verdadeira comunidade. Ao recordar a vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus, os cristãos se comprometem a prolongar os Seus gestos, atitudes, valores, compromissos…
“Fazer memória” de Jesus junto à mesa é acolher o apelo d’Ele: “dai-lhes vós mesmos de comer”; é comprometer-se com a vida; é colocar a própria vida a serviço da vida.
Jesus, no final de sua vida pública, quis cear com os seus amigos e por isso precisavam encontrar uma casa e uma sala na qual houvesse espaço para estarem juntos. O ritual pascal dá lugar aos gestos simples que se fazem entre amigos: partilhar o pão, beber da mesma taça, desfrutar da mútua intimidade, entrar no clima das confidências… A relação de Jesus com os discípulos vinha de longe: levavam longo tempo caminhando, descansando e tomando refeições juntos, partilhando alegrias, falando das coisas do Reino.
Jesus sempre buscou companhia; havia nele uma necessidade irresistível de contar com amigos e confidentes.
E continuará considerando-os como amigos, mesmo quando um deles irá traí-lo e os outros fugirão.
Chama-nos a atenção, no Evangelho de Mateus, a maneira como Jesus indicou aos discípulos o local onde queria que a Ceia fosse celebrada: mandou-os seguir um homem que encontrariam à entrada da cidade.
Junto a personagens conhecidos nos Evangelhos, outros, sem nome, nem identidade, nem protagonismo, surgem inesperadamente, deixando sua “marca”, como o desconhecido homem que emprestou sua casa para que Jesus e seus discípulos pudessem celebrar a Páscoa.
Anônimo perante a posteridade, porque era seguido pelos que vinham atrás dele, este homem, de certo modo e do modo certo, serviu a Jesus como a Igreja deve servi-Lo, sem perguntar qual seria seu lugar à mesa. O que aconteceu dentro de sua casa, transformada no mais importante templo material da história humana, seria mais do que suficiente para arrancar dele alguma expressão de vaidade.
Mas, não é isso que aconteceu com ele; ofereceu a casa sem perguntar quem viria celebrar a Páscoa, sem pedir garantias, sem cobrar aluguel pelo espaço; enquanto os sacerdotes e Judas pechinchavam o valor da vida de Jesus, este desconhecido, por pura gratuidade, ofereceu sua casa ao mesmo Jesus.
Certamente, ele e sua família foram testemunhas desta ceia única e especial, e que será a marca de todo(a) seguidor(a) de Jesus.
Aquele homem desconhecido, representa a todos nós; cabe-nos mostrar o caminho do local da Ceia, cabe-nos palmilhar, sobre as pedras do cotidiano, o rumo que leva à casa do Pai.
E devemos fazer com que outros nos sigam, para que se cumpra tudo que foi instituído.
Orientadores do povo de Deus, abramos as portas da grande sala de nossa casa e a confiemos ao Mestre para que realize ali o imenso dom da Eucaristia, “como aquele que serve”!
Assim fizeram seus seguidores: após a Ressurreição Jesus foi “reconhecido ao partir o pão”; foi reconhecido não porque estava no templo ou ensinava na sinagoga, mas porque partia o pão nas casas.
Jesus fez do universo seu corpo e se faz pão para nós.
Por isso, no primeiro dia da semana, reuniam-se todos nas casas, oravam juntos, recordavam a mensagem de Jesus, comiam o pão, bebiam o vinho e a Vida ressuscitava. A isso chamavam, ‘ceia do Senhor” ou “fração do pão”. Tudo era muito simples e despojado.
A transformação das relações humanas se dá através do partir o pão e do passar o cálice de vinho; como o pão é um, comer desse pão nos faz todos um. A Eucaristia faz de todos nós Corpo de Cristo. Daí o interesse da primitiva Igreja em que, na Eucaristia, comungassem todos do mesmo pão partido, com a finalidade de fazer visível essa unidade de todos.
Ninguém ceia sozinho. Há um partir, um distribuir, mãos que se tocam, olhares que se encontram.
E, em tudo isto, a sensação como se fosse a de uma “conspiração”.
Conspirar, com-inspirar, respirar com alguém, juntos.
Conspiradores: respiram o mesmo ar. Jesus e os discípulos, comendo o Pão e bebendo o Vinho, respiram o mesmo ar, o mesmo sonho, a mesma utopia do Reino.
É assim a comunidade dos cristãos, a Igreja: juntos, conspirando, mãos dadas, comemos o pão, bebemos o vinho e sentimos uma saudade/esperança sem fim…
Tomar o pão e o vinho da Eucaristia é fazer memória de uma presença que nos compromete.
Discípulos(as) de Jesus somos todos quando aprendemos a partir o pão. Reconhecemos os cristãos hoje quando partem o pão e não o armazenam. O pão armazenado, como o maná no deserto, se corrompe, apodrece. Compartilhar significa não “monopolizar”, não permitir que haja necessitados entre nós.
O pão partido é a vida compartilhada: meios, tempo, qualidades.
O cristão, além disso, compartilha seus ideais, seu entusiasmo, seu ânimo, sua fé, sua esperança.
Também hoje Jesus precisa de casas para celebrar a Ceia pascal; precisa de nossas mãos para plantar o trigo e triturar os, amassar a farinha e fazer o pão. E precisa de nosso coração para que o pão seja repartido.
O pão sem coração é pão “monopolizado”. Pão indigesto, que engorda o egoísmo.
O pão sem coração gera divisões e conflitos. Quantas guerras fraticidas provoca o pão sem coração!
Deus precisa de nosso coração para que o pão leve o sinal da fraternidade, seja vitamina de solidariedade, alimento de comunhão, energia de vida.
Textos bíblicos: Mt 26,14-25
- Leia atentamente o relato da Última Ceia.
- Prepare-se para uma contemplação. Com a imaginação, faça-se presente à cena, indo com os discípulos para preparar o ambiente da Última Ceia.
- Procure ativar todos os sentidos: olhe as pessoas da cena, escute o que elas dizem, observe o que elas fazem, saboreie o pão e o vinho dados a você por Jesus…
- Participe, com alegria, deste evento único; deixe-se afetar por tudo o que acontece durante a refeição.
- Traga à sua memória o sentido da Eucaristia em sua vida.
- Reserve um momento de colóquio com Jesus, expressando a Ele seus sentimentos.
Todos os textos da Semana Santa Orante
em um só arquivo para download (PDF)


