“Judas, onde estás?”

Pe. Adroaldo Palaoro, SJ

“Em verdade, em verdade vos digo, um de vós me entregará”

Jo 13,21

No dia de ontem, buscamos inspiração na Casa em Betânia, lugar inspirador para Jesus. Ali, encontramos o ícone para revelar o sentido de nossas moradias: convivência, partilha, comunhão, espírito de serviço, acolhida do diferente, espaço festivo, sensibilidade diante do sofrimento…

Hoje, provocados pelo relato do evangelista João, vamos trazer presente um outro dado que nos custa compreender: a casa pode ser, muitas vezes, lugar da traição, da frieza nas relações, do ódio que divide, do distanciamento afetivo, da casa-pensão onde seus moradores não se conhecem etc.

Poucas experiências destroem tanto alguém por dentro como a traição.

Quem traiu e quem foi traído assume reações semelhantes, como esvaziamento da afetividade, sensação de inutilidade vital, desorientação, perda do sentido da própria existência, angústia, pânico, fobias e medos generalizados diante das pessoas e do mundo. A traição desmonta a esperança no outro ser humano e leva a desacreditar na existência do amor. A traição tira do ser humano sua capacidade de dar respostas à vida, de envolver-se num projeto e num ideal maior, que ultrapasse o valor de sua própria vida.

Nestes primeiros três dias da Semana Santa, aparece a figura de Judas, não como protagonista, mas como antagonista, como contraponto, alguém deslocado do clima de amor e amizade. Os próprios evangelistas se sentem incomodados com ele e não aceitam suas posturas e atitudes.

Na verdade, Judas não conseguiu captar que em torno a Jesus tudo é gratidão e gratuidade; já na casa em Betânia, ele destoou e criticou o gesto amoroso de uma mulher derramando perfume nos pés de Jesus.

Reagimos negativamente frente a traição de Judas, mas no fundo ele nos causa repulsa porque é projeção das nossas infidelidades e traições. Ele é o espelho no qual nos vemos.

Mas… o que vem a ser a traição? Como ela se manifesta na nossa vida? Por que traímos a confiança do outro? O ato de trair implica romper uma aliança que uma pessoa fez com outra. Trair é uma ação que revela sérias consequências, e, quando se fala de relacionamento humano, envolve sofrimento e sensação de abandono, gerando um estado de desconfiança generalizada naquele que foi traído.

Traição dói na proporção inversa da distância. Quanto mais próxima a pessoa traidora, tanto maior a dor do traído. A traição se situa no mundo das amizades, das vinculações afetivas intensas, das ligações íntimas, das proximidades de vida.

Podemos destacar duas dimensões na Paixão de Jesus: a primeira paixão acontece no grupo interno (traição, negação, busca de poder, incompreensão da missão…); isso provoca profundo sofrimento em Jesus. 

A outra paixão é provocada pela oposição, perseguição externa… geralmente ficamos impactados com os sofrimentos físicos cometidos pelos opositores. O sofrimento interno não é visível, mas é maior.

Certamente o maior sofrimento de Jesus partiu do grupo mais íntimo; da perseguição externa já era esperada, mas do grupo de convivência dos discípulos, foi muito duro para Jesus. E Judas era considerado “um dos Doze”.

Judas se tornou o símbolo da traição porque fazia parte do grupo íntimo dos apóstolos. Foram anos de convivência nas mesmas caminhadas, nas noites ao relento, nas pregações, nas refeições simples do dia a dia e nas festas. Jesus e Judas viviam elos de amizade, de confiança, de esperança entre si.

De repente, rompe-se tal aliança e Judas entrega Jesus aos adversários.

Com a traição, Judas passou da amizade para a decepção, para a desilusão, para a perda de vinculação até a entrega. Processo lento que foi minando o seu coração, até que ele se corrompeu, a ponto de renegar a amizade e trair.

Que aconteceu no coração de Judas na noite da Última Ceia? Rodeado de um mundo de mistério, rodeado de um clima de bondade, de amor e salvação, e, no entanto, o coração de Judas está em outro lugar. Está impermeável à verdade que se celebra; está seco em seu interior, fechado ao mistério da graça.

Quando Jesus, na Última Ceia anuncia que um deles vai lhe entregar, todos ficam “assustados”, “olham-se mutuamente”, mas não conseguem identificar o traidor. Os traidores não têm um rosto especial; qualquer rosto vale para dissimular a traição do coração; qualquer rosto vale para esconder um coração traidor.

Judas, em nada dava sinais de ser diferente do restante dos discípulos. Por isso ninguém se atreveu a acusá-lo de traidor. Parecia tão normal como qualquer outro do grupo.

É que as traições são alimentadas e escondidas no coração; as traições não têm rosto, não são visíveis. Por isso mesmo, os traidores, são tão difíceis de serem reconhecidos. Caminham como todos. Comem como todos. Sorriem como todos. Tem cara de amigo, mas por dentro carregam um coração vendedor de vidas, de dignidades, de amizade…

Ao dar “o pedaço de pão passado no molho” vemos aí o último gesto de carinho por parte de Jesus para com Judas, uma graça final que o traidor recusa. Fez-se “noite” em seu interior, e ele saiu de casa para cumprir a intenção do seu coração: entregar Jesus.

O traidor é um exemplo das trevas sobre as quais brilhou a luz em vão; ele ama as trevas mais que a luz, porque suas obras eram más.

Sentimos pena de Judas, porque é um homem decepcionado com o chamado de Jesus e sua própria vocação. Não se sente como os outros, e nem sequer é tão espontâneo como Pedro ou os Zebedeus, que queriam ser importantes; ele não quer só ser importante, quer estar em tudo por cima dos outros. Está “amargo” porque Jesus não correspondia às suas expectativas como Messias e que estava perdendo o tempo com os discípulos em vez de prepará-los para a revolução e formar um grupo político, não religioso. Judas perdeu a admiração por Jesus.

Judas não compreende o gratuito, ou seja, o que recebeu de Jesus, as possibilidades de ser apóstolo e sair de si mesmo, entregando-se, doando-se… e tudo quer justificar a partir de seu próprio ponto de vista.

Judas não sabe participar e desfrutar de uma agradável refeição em companhia dos outros, nem se preocupa em agradecer a Jesus pela admirável ceia. Judas caminha para a decepção, a solidão e a morte. Abandona o grupo, sai à noite para alimentar seu “ego inflado”, sofre a decepção frente seus “falsos” amigos, vê que sua vida já não tem saída nem sentido.

No fundo é fraco, tira a própria vida, não faz dela uma entrega, como Jesus.

Existem muitos “judas” na comunidade cristã, fechados em si mesmos e que buscam seus interesses egóicos; criticam todo gesto oblativo de acolhida e de serviço; estão só preocupados em buscar algum benefício (número de seguidores, ruídos e tumultos, atos egóicos centrados no interesse financeiro). A entrega amorosa de cada dia parece não ter sentido para eles.

Há coisas e gestos que estão muito além do dinheiro: a delicadeza para com as pessoas, a compaixão para com os excluídos, a presença solidária entre os mais necessitados. A vida de comunidade, inspirada em Jesus, deve se constituir de detalhes carinhosos e não de racionalizações e conveniências de nosso gosto.

Pensemos em tantos “judas institucionalizados” que exploram as pessoas, alimentando uma “cultura de morte”; pensemos nos “pequenos judas” que carregamos dentro de nós, na hora de eleger entre lealdade e interesse, entre gratuidade e dureza de coração. “Cada um de nós tem a capacidade de trair, de vender, de só optar em favor do próprio interesse. Cada um de nós tem a possibilidade de deixar-se seduzir pelo amor ao dinheiro, pela busca de poder. Judas, onde estás? É a pergunta que faço a cada um de nós” (Papa Francisco).

Texto bíblico:  Jo 13,21-38
[Bíblia Paulus on-line]

Na oração: Diante de “Jesus traído”, recorde experiências pessoais de traição: quando foi traído? Quando traiu? Como se sentiu?


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