Betânia: casa da acolhida, comunidade de amor
Pe. Adroaldo Palaoro, SJ
Semana Santa Orante 2026
Segunda-feira da Semana Santa
A casa inteira ficou cheia do perfume do bálsamo
Jo 12,3
No percurso contemplativo da vida pública de Jesus, o início desta Semana Santa nos conduze até Betânia, a ser e viver Betânia, a assumir Betânia:
- casa de hospitalidade e de escuta, onde todos somos irmãos sentados à mesma mesa, junto ao Mestre, o único Senhor, em quem se centra nossa hospitalidade e nossa escuta;
- lugar de descanso, como foi para Jesus, onde encontra humanidade, calor humano, compreensão, alívio;
- lugar de passagem, onde recuperamos forças para viver situações de Páscoa, onde acontece a intimidade do encontro dos amigos que falam de assumir as consequências de viver em favor dos outros, de deixar-nos levar pelo Espírito e amar até o extremo…;
- “casa dos pobres” (Beth-anawim): nela, em primeiro lugar, habitam nossas pobrezas pessoais e comunitárias, nossa pequenez e nossa fragilidade; mas, também, onde a dor de nosso mundo, da humanidade, têm lugar e tocam nosso estilo de viver, de nos relacionar, de nos confrontar em nosso seguimento de Jesus.
O tema da Campanha da Fraternidade deste ano – Fraternidade e moradia – nos ajuda a recordar que o mundo relacional de Jesus era amplo e diversificado; seus amigos e amigas se multiplicavam a cada passo que dava. Um exemplo disso é sua relação com os três irmãos, na casa em Betânia.
Betânia é para Jesus o lar da acolhida, da hospitalidade, da escuta, da amizade e do serviço. Ali, Ele expressa as atitudes humanas presentes na cotidianidade de uma família que Ele amava e que O amava.
Betânia é o templo onde Jesus percebe a presença e o agir de Deus nos fatos mais simples da vida cotidiana; Betânia é, para Jesus, um prolongamento de Nazaré, o lugar do cotidiano, do pequeno, do simples, o lugar da revelação. Betânia é o ícone de uma verdadeira comunidade de seguidores(as): casa da unção, do serviço, da escuta atenta; é o lugar da Páscoa que antecede a Páscoa do Filho de Deus.
Betânia nos desafia a gerar um novo estilo relacional que seja capaz de tornar visíveis os sinais do Reino, aqui e agora. Betânia é o lugar de uma nova mística: a do seguimento e identificação com Jesus, a mística da sensibilidade humana, que nos faz passar da morte à vida, como Lázaro. Ali, Ele deixa transparecer um coração carregado de amor oblativo, gratuito…
Jesus, perseguido pelos poderes civil e religioso, vai a Betânia, na casa das suas amigas Marta e Maria e de Lázaro. Mesmo sabendo que a polícia estava atrás de Jesus, os três irmãos receberam-no em casa e ofereceram-lhe um jantar. Acolher em casa uma pessoa perseguida e oferecer-lhe um jantar era perigoso. Mas o amor faz superar o medo.
Neste ambiente, já não há mais rivalidade entre as duas irmãs, Marta e Maria, mas colaboração e complementariedade. Juntas se fazem transparentes para algo maior que elas mesmas. Certamente Jesus deixou “refletir” em sua vida o que viu fazer estas duas mulheres.
Os discípulos levavam muito tempo com Jesus e nenhum tinha feito com Ele o que estas duas mulheres fizeram. Ninguém lhe havia manifestado gestos de tanto amor.
Elas se fazem totalmente presentes a Jesus; aceitam o que vai acontecer e o acompanham. Marta, servindo a mesa e as mãos de Maria acariciando e ungindo os pés de Jesus; e Ele deixando que elas expressem em gestos o que estava no coração delas: muito amor. Um gesto que Judas não compreendeu.
Marta e Maria expressam sua amizade e fazem com Jesus o que Ele logo fará com seus discípulos no momento de sua despedida, na Última Ceia: os servirá à mesa e lavará seus pés. Jesus se deixou fazer, para poder fazer isso com outros e quis tomar para si os gestos destas mulheres para fazer memória de sua vida.
Impressiona-nos que, neste relato, elas não falam, mas expressam todo seu amor “mais em obras que em palavras” (Santo Inácio).
Aqui, no centro do Evangelho de João, a comunidade, reconstruída no amor, exala o bom perfume que enche toda a casa. Em lugar do cheiro da morte, a casa enche-se do perfume: símbolo do amor que exala bom odor. É um amor que não tem preço.
O perfume de Maria é o símbolo da vida e do amor de cada um. É um amor oblativo e gratuito e que está sempre voltado para os mais pobres. “Pobres, sempre os tereis convosco”, porque sempre haverá vítimas das estruturas sociais injustas e violentas.
À luz de Betânia e de nossa realidade, quais perfumes derramar para superar o mal odor dos nossos ambientes? O que cheira mal entre nós, seguidores(as) de Jesus? Medo risco e do novo, medo de perder seguranças; medo de equivocar-nos, de experimentar outras maneiras de viver; medo de enfrentar situações desafiantes na sociedade, medo da dor e da morte, medo do diferente…
Cheira mal as seguranças petrificadas, o imobilismo; cheira mal a indiferença e a acomodação, sobretudo diante das necessidades de nosso mundo; cheira mal o ódio, a intolerância, o julgamento; cheira mal a desesperança frente a um futuro incerto.
Há um forte mal odor dentro de nossas “bolhas mofadas”, dentro de nossas casas; custa-nos reforçar laços, alimentar solidariedade, entrar em sintonia com a paixão da humanidade. Preferimos conservar a arriscar; percebemos a inércia e a falta de renovação séria e profunda, uma falta de abertura frente ao diferente, uma perda de tempo gasto em estéreis conflitos entre pessoas, grupos, gerações, dentro de nossas famílias e comunidades.
Na unção em Betânia, Maria pode ser considerada como um ícone da nova sensibilidade que o evangelho nos oferece. Ela está dotada de uma sensibilidade muito superior à dos discípulos, tanto para perceber o que acontece como para expressar seus sentimentos com admirável fineza e liberdade.
Os dirigentes judeus andavam buscando uma ocasião para matar Jesus. Maria, certamente havia escutado os rumores que chegavam da vizinha Jerusalém e que circulavam em voz baixa entre as pessoas do povo. Ela, no entanto, sintonizou com este momento dramático. Sua criatividade feminina encontrou no perfume um símbolo para expressar com grande delicadeza o que esse momento transbordava seu coração. Maria investiu num gesto gratuito e desmedido, expressão de um amor exagerado.
O excesso de seu gesto sintoniza perfeitamente com o amor sem medida de Jesus, mas ultrapassa a limitada capacidade de compreensão dos presentes à mesa, sobretudo Judas Iscariotes.
Os perfumes e os aromas estiveram muito presentes na vida de Jesus, em seus momentos de dor e prazer. O perfume revela e oculta ao mesmo tempo, aviva o desejo, a abertura à surpresa de uma presença. Jesus o recebeu agradecido, e sua própria vida tomou o símbolo do frasco, precioso e caro, que se quebra para poder derramar-se em favor de muitos.
Quando a Vida nos unge, estamos potencialmente equipados para anunciar a boa nova, a luz, a cura, o cuidado… Ações que nos plenificam.
A casa de Betânia se encheu do “esbanjamento” do amor, da ternura, da misericórdia frente ao mal odor da violência, da exclusão, do orgulho autossuficiente.
Junto a Jesus, somos também desafiados a esbanjar a vida com Ele, isto é, viver na e a partir da comunhão com o Deus da vida. Viver, em definitiva, como Jesus viveu: Ele “derramou”, doou toda sua vida através de um compromisso real para tornar visível o amor de Deus.
Assim, na experiência cristã, a vida se “derrama” para tornar visível o amor de Jesus a toda pessoa humana. Um “esbanjamento”, muitas vezes, incompreensível para tantos contemporâneos nossos. Eles nos lançam um duro questionamento: não seria a vivência cristã uma espécie de desperdício de energias humanas, um desperdício de talentos?
Textos bíblicos: Jo 12,1-11
[Bíblia Paulus on-line]
Na oração: Na contemplação, somos convidados a entrar na casa em Betânia: casa de encontro, comunidade de amor e coração de humanidade:
- Com Jesus Mestre, somos inspirados a nos fazer mais humanos e próximos;
- Com Marta, somos movidos a professar a fé e a servir na diaconia;
- Com Lázaro, somos chamados a passar da morte à vida e caminhar na liberdade do Espírito;
- Com maria, somos desafiados a quebrar os frascos e a derramar o perfume da escuta e do amor.
- Criar Betânia em nosso interior e em nossas casas: lugar da mesa compartilhada, da unção e do cuidado; ambiente que exala perfume do amor, gratidão, amizade…
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