Teologia em primeira pessoa
Pamella Barbosa
Eu habito a fé como quem caminha à beira do mar: com reverência, perguntas e os pés descalços.
Minha relação com Deus nunca foi feita de respostas prontas, mas de escuta, de silêncio e de um desejo profundo de permanecer fiel ao Evangelho sem negar a vida.
Creio em um Deus que não omite as cores, que não se rejeita com o amor que não abandona seus filhos e suas filhas quando eles ousam existir por inteiro.
Um Deus que não se opõe à dignidade humana, porque Ele mesmo se fez carne, história e fragilidade.
Trago comigo a tradição da Igreja. Ela me formou, me ensinou a rezar, a amar a Palavra e a reconhecer o valor do rito, da comunidade e da memória.
Mas aprendi, também, que tradição não é imobilismo. Ela é um rio: recebe do passado, mas segue em direção ao futuro.
Por isso, escolhi olhar para o horizonte sem abandonar minhas raízes.
Minha teologia nasce do encontro. Do altar preparado com cuidado, da música que eleva, da mesa onde histórias se cruzam e onde ninguém deveria se sentir estrangeiro.
Ela nasce do acompanhamento, da escuta atenta e da convicção de que não há verdadeira experiência de Deus onde falta humanidade.
Leio a Sagrada Escritura com mãos firmes e coração atento.
Conheço os textos que feriram, excluíram e silenciaram. Mas me recuso a fazer deles a palavra final.
A última palavra, eu creio, é sempre misericórdia. É sempre vida em abundância. É sempre amor que resiste.
Fazer teologia em primeira pessoa é assumir que não existe neutralidade quando falamos de Deus.
Falamos sempre a partir de um lugar: do corpo que habitamos, da história que nos atravessa, das dores que aprendemos a nomear e das esperanças que insistimos em guardar.
Não anuncio um Deus distante, mas um Deus que caminha conosco.
Que escuta, sustenta e abençoa, mesmo quando a instituição vacila e quando a fé parece cansada.
Continuo acreditando na Igreja, não como realidade perfeita, mas como espaço possível de conversão, aprendizado e cuidado.
Acredito numa fé que não exclui, numa Igreja segue aprendendo com Jesus, num Evangelho que continua sendo boa notícia, especialmente para quem passou tempo demais ouvindo apenas condenações.
Eu sigo. Com perguntas, com coragem, com ternura.
E sigo acreditando que Deus faz morada onde há verdade, justiça e amor.
Esta é a minha teologia. Encarnada, imperfeita, em caminho.
Uma teologia em primeira pessoa.
Pamella Barbosa é leiga católica, advogada, bancária e teóloga. Mestra em Teologia Bíblica, é graduada em Teologia e Direito, com foco em temas como diversidade, inclusão e teologia queer. Pertence à Rede Brasileira de Teólogas e à Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT.
Imagem: Lígia de Medeiros — Azulejo de azulejos
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Teóloga e Mestra em Teologia Bíblica.
Pesquisadora nas áreas de Bíblia, diversidade e inclusão, teologia inclusiva, fé e LGBT+ e teologia queer.
Integra a Rede Brasileira de Teólogas e a Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT.
É uma das autoras do livro Teologias e Diversidade Afetivo-Sexual.
