Quando a tradição pesa mais que o amor

A pessoa que fez a experiência de sentir-se rejeitada padece de uma dor interior profunda. Carrega uma vergonha por ser como é.

Olha ao redor e sente-se diferente. Olha para sua comunidade de fé e percebe pessoas que desaprovam aquilo que ela reconhece como parte constitutiva de si: seus desejos, suas inclinações, seu modo de ser.

Quando não encontra na comunidade católica um modo de vida possível para viver e crescer à luz do dia, quando não vê um caminho cristão onde possa sonhar em conformidade com sua própria verdade interior, começa a sentir-se inferior. Passa a acreditar que há algo errado nela, porque aquilo que é não encontra correspondência na vida pública dos demais nem nas tradições valorizadas por todos.

Muitas vezes, sua condição é percebida por outros que a excluem ou se aproveitam de sua vulnerabilidade. Quem já internalizou que não é bom nem permitido viver e amar às claras pode ser arrastado para as sombras. Aproveitadores, em contextos de submissão, precariedade afetiva e abuso emocional ou sexual, ensinam que a vazão desses afetos tradicionalmente “reprovados” só pode acontecer no sigilo, na duplicidade, em práticas perigosas.

Essa vida escondida aprofunda ainda mais a autorreprovação. A pessoa já aprendeu, em sua convivência e nas tradições que recebeu, que aquilo que sente é reprovável. Quando vive às escondidas, sente-se ainda mais indigna. A autoestima é profundamente ferida. Ela passa a olhar para si desde um ponto de partida negativo: o de que não presta.

Tudo isso condiciona a forma como essa pessoa se colocará no mundo. Alguns seguirão autodepreciando-se — ou depreciando outros que são como si mesmos. Terão um caminho árduo para fazer uma experiência verdadeira de sentir-se amados e de amar.

Outros encontrarão, na identificação com causas e grupos também preteridos, um espaço para reconhecer sua própria dor e reconstruir um sentido de vida que transcenda a rejeição recebida. Mas muitos internalizam a exclusão de tal modo que sequer acreditam ser possível discordar dela. Pensam que questionar esse estado de coisas significaria romper com sua identidade ou com pertenças afetivamente caras.

Há, nessa rigidez, muitas ilusões misturadas. Para quem não aprendeu a amar-se e deixar-se amar incondicionalmente, parece mais seguro — ainda que seja uma falsa segurança — permanecer apegado às ideias e estruturas familiares, mesmo que sejam fonte de sofrimento. Alguns preferem negar a própria necessidade de crescimento interior a permitir que as feridas de rejeição venham à luz.

Mas, aos meus olhos, o mais triste para uma pessoa católica é conceber-se como não sonhada, prevista ou como preterida por Deus. Muitos passam a relacionar-se com Ele pela via do mérito: acreditam que Deus os amará se abafarem sua constituição afetiva, se negarem aquilo que são.

Quem parte de si mesmo como alguém não sonhado por Deus, como alguém preterido por Ele, dificilmente experimentou de modo direto e transformador a abundância de Seu amor incondicional.

Mesmo quando a rejeição é legitimada por tradições ou por membros da comunidade, ela não resiste à força do amor de Deus. Esse amor pode levar a pessoa a descobrir a beleza de quem é — e até a orgulhar-se disso.

Trata-se de confiar mais no amor misericordioso de Deus do que nas falsas seguranças das ideias. É exigente. Não requer ruptura com a totalidade da tradição, muito menos abandono da comunidade de fé. Mas exige liberdade interior.

Exige colocar a experiência pessoal do amor de Deus como fundamento primeiro da identidade cristã e humana, realocando as adesões ideológicas à luz dessa experiência radical.

Quando isso acontece, a consciência se abre. O intelecto se ilumina. Surgem entendimentos mais humanos, mais coerentes com a experiência da comunidade de Jesus e com seu projeto de vida: o Reino de Deus.

O caminho para essa experiência é a abertura generosa do coração. É o desejo sincero de deixar-se tocar até as raízes. É permitir que as sombras, as vergonhas e as tristezas mais profundas sejam iluminadas.


João Melo é professor, escritor e paulistano. Descendente de retirantes da seca de 1915, no Ceará e Piauí; e de apanhadoras de flores sempre-vivas da Serra Negra, em Itamarandiba (MG). É licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, mestrando em Educação na UERJ. Tem livros e artigos publicados em periódicos, revistas e portais digitais. Atualmente, vive no Rio de Janeiro.

Imagem: Sara Goldman Belz. Sobre o Amor, 1976. Enciclopédia Itaú Cultural.

Espiritualidade cristã João Melo LGBTQIA+

João Melo Visualizar tudo →

Descendentes dos retirantes que enfrentaram a seca de 1915 (PI/CE) e das apanhadoras de flores sempre-vivas ao pé da Serra Negra em Itamarandiba (MG). Autor de “Entre Eva e Mapana” (Editora Pluralidades, 2023) e de livros da série “Ensaios Teológicos Indecentes” (Editora Metanoia, 2024).

Deixe um comentário