Quando Inácio de Loyola superou o peso da escuridão

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Ao concluir o mês do Setembro Amarelo, vale recordar que nem mesmo os santos estiveram imunes às sombras mais profundas da alma. Santo Inácio de Loyola, em sua Autobiografia, narra momentos de tentação de tirar a própria vida e práticas de abstinência levadas ao extremo. Ele mesmo descreve:

Estando nestes pensamentos, vinham-lhe muitas vezes tentações, com grande ímpeto, para jogar-se de um buraco grande que havia junto do lugar onde fazia oração. Mas, sabendo que era pecado matar-se, voltava a gritar: – Senhor, não farei nada que Te ofenda.

Autobiografia, n. 24

Ao mesmo tempo, buscava jejuar de forma punitiva, acreditando que apenas pela privação poderia agradar a Deus. Foi graças à orientação de um confessor que interrompeu esse ciclo e começou a se libertar dos escrúpulos obsessivos. Dessa experiência brotaram as “Regras para Sentir e Compreender os Escrúpulos”, presentes nos Exercícios Espirituais.
Nelas, Inácio escreve com clareza:

Chama-se vulgarmente escrúpulo o que provém do nosso próprio juízo e liberdade, a saber: quando eu livremente imagino que é pecado aquilo que não é pecado. Assim, por exemplo, acontece que alguém, depois de ter pisado casualmente uma cruz de palha, imagina, por seu próprio juízo, que pecou; isto é propriamente um juízo errôneo e não propriamente um escrúpulo.

EE, 346

Essa definição ilumina algo muito atual: pessoas LGBTQIAPN+ muitas vezes são levadas a desenvolver o juízo errôneo de que sua sexualidade, sua afetividade ou sua identidade de gênero são pecados em si mesmas. Esse peso, introjetado por discursos religiosos que repetem a ideia de que são “intrinsecamente desordenadas”, gera feridas profundas. Como aponta o teólogo Spencer, tal obsessão moral concentra-se em temas como sexo e práticas de piedade, enquanto negligência exigências maiores do Evangelho, como a justiça e a caridade.
Não são poucos as pessoas que, esmagados por esse peso, chegam a cogitar o fim da própria vida. Suas ideações suicidas, muitas vezes desqualificadas como “frescura” ou “chamar atenção”, são na verdade um pedido de ajuda diante da dor de acreditar que não são amados por Deus. A raiz desse sofrimento não está em serem quem são, mas em acreditarem na mentira de que Deus não os quer ou que seu amor é condicionado à renúncia da própria identidade.
O livro Teologia e os LGBT+, do jesuíta Pe. Luís Corrêa Lima, traz um testemunho de um jovem que escutou uma palestra do jesuíta aliado dos LGBTQIAPN+:

Padre, o senhor não sabe o bem que me fez! Eu ia me matar! Até escrevi uma carta de despedida para minha família, que está aqui na minha mochila.

Esse jovem, criado na Igreja, havia escutado do púlpito que pessoas LGBTQIAPN+ “têm um demônio” e que seria “melhor que não vivessem muito”. Marcas como essa revelam o quanto palavras de ódio, revestidas de autoridade religiosa, podem matar. Mas também revelam que uma palavra de esperança pode salvar vidas.

Por trás de tanta angústia e desespero, muitas vezes está esse juízo errôneo que desumaniza e leva a uma espécie de “jejum” da própria vida, da alegria, do prazer e até da misericórdia. A experiência espiritual mostra que essa dinâmica se rompe quando a pessoa se abre ao mistério da misericórdia de Deus, experimenta o prazer e o consolo do perdão e descobre a segurança de estar nas mãos d’Aquele que é amor. O Espírito Santo age precisamente aí: libertando do olhar que vê pecado onde ele não existe e curando as obsessões e feridas que aprisionam a consciência.

O exemplo de Inácio ajuda a compreender: ele tinha a noção equivocada de que deveria reconfessar pecados já confessados ou jejuar como punição, numa dinâmica de violência contra si mesmo. Da mesma forma, não poucos católicos que vivem um “jejum sacramental”, convencidos de que não podem se aproximar da Eucaristia por causa de sua vida afetiva. Porém, o jejum que agrada a Deus nunca é punição. Não pode ser violência contra si. Deus não é sádico. O jejum só tem sentido quando é partilha, quando se transforma em solidariedade, em justiça e em caridade.

A maturidade da consciência moral surge quando deixamos de medir a vida cristã pela quantidade de vezes que se confessou práticas sexuais ou faltas a missas, e passamos a examinar se fomos justos, se promovemos a caridade, se cuidamos do próximo. É nesse horizonte que a consciência moral da pessoa católica dá um salto real, seguindo a centralidade do Evangelho de Jesus, que falou mais de justiça e amor do que de sexo ou de rituais de templo.

O testemunho de Santo Inácio, assim como o de tantas pessoas LGBT+ que resistem à tentação do desespero, nos lembra: não somos chamados à morte, mas à vida. Não somos criados para a vergonha, mas para a misericórdia. E se em algum momento a escuridão pesar, que ninguém hesite em pedir ajuda — porque há sempre um Deus que ama e pessoas que podem escutar.

Se você ou alguém próximo a você estiver em sofrimento, busque apoio. Ligue 188 ou acesse www.setembroamarelo.com

Como Inácio experimentou, pedir ajuda e confiar na misericórdia pode ser o primeiro passo para despertar de um sonho sombrio e reencontrar a esperança.


João Melo é professor, escritor e paulistano. Descendente de retirantes da seca de 1915, no Ceará e Piauí; e de apanhadoras de flores sempre-vivas da Serra Negra, em Itamarandiba (MG). É licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, mestrando em Educação na UERJ. Tem livros e artigos publicados em periódicos, revistas e portais digitais. Atualmente, vive no Rio de Janeiro.

João Melo LGBTQIA+

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Descendentes dos retirantes que enfrentaram a seca de 1915 (PI/CE) e das apanhadoras de flores sempre-vivas ao pé da Serra Negra em Itamarandiba (MG). Paulistano que vive no Rio de Janeiro. Autor de “Entre Eva e Mapana” (Editora Pluralidades, 2023) e de livros da série “Ensaios Teológicos Indecentes” (Editora Metanoia, 2024).

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