Franciscus: o Papa que nos viu e nos amou

Passos lentos. Reformas demoradas. Mas o rumo estava certo.

Era mais fácil adormecer à noite quando sabíamos que a Igreja seguia um caminho de Evangelho vivo e de mãos estendidas. Entre tantos líderes mundiais que alimentam o preconceito e a exclusão, Francisco foi um sinal de segurança e lucidez.

Um papa que perguntou: Quem sou eu para julgar?

Dele aprendemos que uma pergunta: “Quem sou para julgar?” é mais do que uma dúvida, é, na verdade, a afirmação de uma acolhida a todos, todos, todos. Ninguém poderia honestamente duvidar que o papa Francisco, muito mais do que tolerar pessoas LGBTs, tinha a intenção de acolhê-las, integrá-las e demostrar a elas o amor incondicional de Deus. Sua atuação junto aos LGBTs era intencional e desejada como missão pastoral.

Gestos que não podem ser esquecidos

Quero recordar apenas alguns gestos que antes eram impensáveis para um papa. Sim, pasmem! Vivemos e vimos isso: um papa que tinha o compromisso de acolher os LGBTs.

Em mais de uma vez, Francisco recebeu pessoas trans na sede da Igreja Católica, sejam elas conhecidas dele de longa data, ou que representavam grupos católicos LGBTs. Em uma dessas ocasiões, ele beijou as mãos de algumas mulheres trans que saíram do encontro com ele profundamente emocionadas e aos prantos, simplesmente porque não foram maltratadas e pelo gesto de afeto que ele as demonstrou. Que fique para a história: um papa que acolheu no Vaticano e até beijou as mãos de mulheres trans.

No documentário “Amém”, disponível na Disney+, testemunhamos a conversa dele com uma jovem não-binária que lhe perguntou se ele sabia o que essa identidade de gênero significava. E, mais uma vez, pasmem! O papa sabia. Um papa que entendia de identidade de gênero e sabia o que era uma pessoa não-binária dirigiu palavras de acolhida a essa jovem.

Em diversas ocasiões, Francisco conversou com gays, lésbicas e bissexuais que se encontraram com ele ou que escreveram para ele. Nunca lhes disse uma palavra de condenação, mas os tratava com respeito, cuidado e delicadeza.

A coragem de encorajar

Com ousadia, Francisco encorajou o ministério do padre James Alison, sacerdote assumidamente gay, com quem ele conversou não para condená-lo ou suspendê-lo do sacerdócio, mas para aconselhá-lo a seguir adiante com sua missão, dizendo: “Quero que caminhes com plena liberdade interior, seguindo no espírito de Jesus. Eu te dou o poder das chaves, me entendes? Te dou o poder das chaves”. Francisco também estimulou o trabalho pastoral de padres e freiras aliados junto aos LGBTs, como foi o caso do conhecido padre jesuíta James Martin, e da irmã Jeannine Gramick, SL.

Francisco também defendeu a união civil entre pessoas do mesmo sexo, condenou as leis que criminalizam a homoafetividade, aconselhou as famílias, pais, mães e familiares a acolherem seus filhos e parentes LGBTs, e, por fim, permitiu uma benção pastoral para casais do mesmo sexo.

Quando foi que tivemos um papa que beijou a mão de mulheres trans? Quando foi que um papa se mostrou entendido de identidade de gênero e dialogou de forma tão acolhedora com uma pessoa não-binária? Quando foi que um papa tratou com delicadeza tantos gays, lésbicas e bissexuais? Quando foi que um papa aconselhou suas famílias a acolherem-nos? Quando foi que os defendeu de leis que criminalizam suas orientações sexuais? Quando foi que um papa defendeu a união civil homoafetiva e permitiu que esses casais recebessem uma benção pastoral?

“Em verdade, em verdade, te digo: nós falamos do que conhecemos e damos testemunho do que vimos” (1Jo 1,2). Vivemos e vimos um papa assim, e seu nome era Francisco.

O que esperamos do próximo papa?

Para o próximo papa, um grande desafio está lançado: seguir o caminho aberto corajosamente pelo seu predecessor rumo à plena acolhida das pessoas LGBTs na vida e missão da Igreja. Sim, essa é a nossa esperança.

Não há como apagar de nossas memórias os gestos e as falas de Francisco, o Misericordioso. Vivemos e deles damos testemunho.

– Mas e se o novo papa não for acolhedor como era Francisco?

Então, chamaremos alguns irmãos e irmãs, aliados, aliadas e LGBTs, para corrigir na caridade fraterna nosso irmão, o bispo de Roma (Mt 18,15-17), e ensiná-lo, guiados pelo Espírito Santo, o alcance do amor incondicional de Deus, segundo a infalibilidade do “sensus fidelium” (sentido da fé dos fiéis). Como exemplo, apontaremos para os gestos e palavras de seu predecessor, o papa Francisco que também errou, foi corrigido, pediu perdão e emendou-se.

Padre James Martin contou recentemente em suas redes sociais que, certa feita, em uma reunião no Vaticano, o papa Francisco usou uma gíria pejorativa para se referir a padres gays. Então, Martin teve com ele uma conversa desafiadora, onde explicou ao papa o uso indevido do termo, e que ele mesmo conhecia padres gays que viviam com fidelidade seu ministério sacerdotal. Francisco pediu publicamente desculpas através de um comunicado da Santa Sé e agradeceu pessoalmente ao jesuíta que lhe corrigiu na fraternidade, prometendo que nunca mais usaria essa linguagem pejorativa.

 – Mas e se mesmo assim, o novo papa não nos escutar?

Então, qual viúva insistente (Lc 18,1-8), na perseverança e na confiança em Deus, pediremos insistentemente que todo o povo de Deus, todos, todos, todos, sejam fiéis ao Evangelho na acolhida plena das pessoas LGBTs na vida e missão da Igreja.

Se for necessário, a Igreja será chamada à conversão por meio da escuta de seus próprios filhos e filhas. Não abandonaremos a nossa casa porque não estamos abandonados. Nela e em nós habita a presença real do Ressuscitado que nos dá força e coragem para resistir, não obstante venham ventos contrários. Em nossas memórias, habitam os gestos e as palavras de Francisco, que agora são gestos e palavras nossas, fonte de legitimidade, inspiração e profecia.

Ainda estamos aqui.
E seguiremos aqui.
Porque somos todos, todos, todos…
Franciscus.


João Melo é professor, escritor e paulistano. Descendente de retirantes da seca de 1915, no Ceará e Piauí; e de apanhadoras de flores sempre-vivas da Serra Negra, em Itamarandiba (MG). É licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, mestrando em Educação na UERJ. Tem livros e artigos publicados em periódicos, revistas e portais digitais. Atualmente, vive no Rio de Janeiro.

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Descendentes dos retirantes que enfrentaram a seca de 1915 (PI/CE) e das apanhadoras de flores sempre-vivas ao pé da Serra Negra em Itamarandiba (MG). Paulistano que vive no Rio de Janeiro. Autor de “Entre Eva e Mapana” (Editora Pluralidades, 2023) e de livros da série “Ensaios Teológicos Indecentes” (Editora Metanoia, 2024).

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