O sangue dos mártires ainda fala: do Coliseu ao armário

Nos primórdios do cristianismo, fim da Idade Antiga, muitas pessoas cristãs foram perseguidas e mortas pela sua fé em Jesus. Elas receberam o nome de mártires. Muitas dessas execuções eram espetáculos performados no Coliseu romano.

De minoria perseguida a cultura dominante

É um desafio para nós, cristãos do século XXI, compreendermos o contexto que atravessava a vida dessas pessoas, pois tratava-se de uma realidade muito diferente da nossa. Nós, ocidentais, vivemos em sociedades que foram criadas a partir de costumes cristãos, elas não. Observe, por exemplo, nosso calendário, nossa legislação, e veja a quantidade de igrejas e instituições cristãs espalhadas por todos os lados. As primeiras pessoas cristãs da Antiguidade não respiravam uma atmosfera moldada pela Igreja. Hoje, o “normal” é ser uma pessoa cristã, e, muitas vezes, o contrário é até malvisto socialmente.

O racismo religioso como herança da intolerância

Na verdade, no Brasil, vivemos um tempo em que religiões afro-brasileiras como o Candomblé e a Umbanda são marginalizadas, demonizadas e até perseguidas, como foram as pessoas cristãs que eram minoria no tempo antigo. De perseguidas, passamos a perseguidores… O racismo religioso é um pecado cristão que tem se tornado cada vez mais grave.

Martírio: muito mais do que um interrogatório

Pessoalmente, eu imagino que o martírio das primeiras pessoas cristãs não se dava por uma questão superficial e circunscrita ao que o mártir ou a mártir dizia ou deixava de dizer. Me parece estranho simplificar a compreensão de martírio a uma espécie de interrogatório sobre a fé da pessoa, em um episódio em que se ela responder que crê, morre, mas se mentir dizendo que deixou de crer, ela escapa da morte. Muita coisa pode ser dita da boca para fora, como explica Jesus na parábola dos dois filhos (Mt 21,28-32).

A vida cristã das pessoas mártires ultrapassa a um momento de interrogatório. O que está em xeque é a identidade cristã. Será que o desejo de Jesus era a morte de seus seguidores por um fala ou não fala? Devemos mesmo interpretar as narrativas dos interrogatórios das primeiras pessoas cristãs a partir do binômio simplista de que fé e coragem é quando aceito morrer pelo que eu disse, e apostasia e covardia é quando escapo da morte por esconder minha identidade? Acho que não é só esse o dilema por trás dessas histórias e nem só esse o dilema de vida enfrentado pelas pessoas mártires da Igreja Primitiva. As narrativas de interrogatórios são só uma amostra que não deveriam ser absolutizadas para se compreender o martírio.

Entre campos de concentração e atentados: Mártires da Modernidade

Durante a Segunda Guerra Mundial, a ditadura totalitária nazista perseguiu judeus, comunistas, LGBTs, e até grupos cristãos. Conhecemos, por exemplo, os casos dos mártires Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) e São Maximiliano Kolbe. Não foi um simples interrogatório que os condenou. Se uma pessoa judia, cigana, sindicalista ou maçom dissesse, em um campo de concentração, que renunciava às suas convicções pessoais e abraçava à ideologia nazista, ela iria ser libertada? Acho muito improvável que se instalasse um interrogatório onde uma resposta de “apostasia” mudasse a sina do mártir.

Em nossos tempos, grupos terroristas de religiosos extremistas organizam ataques com a finalidade de exterminar os “infiéis”. É inverossímil crer que estes grupos estariam interessados em interrogar cristãos para identificar quem estaria disposto a renunciar a sua fé para abraçar a deles. Duvido muito que extremistas religiosos façam esse tipo de questionamento antes de consumarem um ato terrorista.

O desejo de matar pelo “odium fidei” (ódio à fé) é sistêmico, isto é, não dialógico. Ele é radical, portanto, não há espaço para o questionamento. Nem mesmos os brasileiros cristãos que perseguem os terreiros de Umbanda e Candomblé questionam suas vítimas. A intolerância religiosa é um “odium fidei” ensimesmado que cega a pessoa em seu próprio pecado.  

Arrisco dizer que, seja no caso dos nazistas perseguidores de judeus, comunistas, LGBTs, e até de cristãos, seja no caso de terroristas religiosos exterminadores de “infiéis” cristãos, e seja no caso de brasileiros cristãos perseguidores de religiões de matriz africana, em todos esses casos, a identidade dos perseguidos não gera dúvidas: judeus, comunistas, LGBTs, cristãos, candomblecistas e umbandistas eram quem eles eram e suas identidades eram conhecidas, e não havia necessidade de interrogatório. Isso bastava/basta para os detratores da fé os martirizarem.

Martírio como ato de fé e resistência política

Os mártires são pessoas cuja plenitude da verdade de suas identidades, pela simples identificação com a inteireza do que são, impede que isso se confunda com qualquer outra coisa. Essa plena identificação, aí sim, requer fé, coragem e ousadia.

Assim, a pessoa mártir cristã é plenamente cristã, isto é, plenamente identificada com o projeto de vida de Jesus. Ela está tão associada a Ele, que não restam dúvidas de sua adesão e escolha fundamental de vida. Daí o “odium fidei” de seus perseguidores, diante da evidência de quem ela é.  

Por essa razão, quando penso nas pessoas mártires da Igreja Primitiva, não acredito que estamos falando de pessoas cuja fé não era conhecida publicamente, ou mesmo cuja fé era questionada. Essas pessoas viviam a plena identificação de uma identidade: eram pública e notoriamente cristãs, e não poderiam mudar esse conhecimento. Não seriam nem simples palavras de negação que convenceriam seus executores da mudança radical de seus corações. Assim, mesmo em um interrogatório, por mais que as palavras de sua boca dissessem o contrário, a fim de preservarem a própria vida, era conhecido que em seus corações permaneceriam cristãs. Pois, em muitos casos, já era impossível camuflar a identidade de fé.

Na verdade, o que o Império Romano tentava conseguir com um interrogatório público e renúncia à fé de uma pessoa claramente e indubitavelmente cristã era o escondimento da realidade da fé, isto é, que a pessoa se torna-se um cristão reprimido, diminuindo a sua influência pública e amedrontando os demais cristãos. Algumas dessas execuções eram assistidas no Coliseu romano por uma grande audiência. O que é negado tenta esconder a radical identificação.

As pessoas cristãs sabiam da intenção do Império com os interrogatórios públicos e reagiram. Por amor à fé e para sustentar a resistência das comunidades cristãs, o martírio era um ato de fé e coragem cristã, e um ato político contra o Império Romano. O martírio era, na verdade, um ato de entrega e profunda doação amorosa, ao mesmo tempo em que era uma ousada estratégia cristã com o objetivo de sabotar a opressão imperial e de incitar coragem a um maior número de cristãos, para se oporem à repressão religiosa. Daí a origem da expressão latina de Tertuliano “O sangue dos mártires é a sementes dos cristãos”. E essa estratégia funcionou. O testemunho dos mártires inspirou os demais. A comunidade cristã não apenas sobreviveu, como multiplicou os seus adeptos.

Assim, é um grande equívoco compreender o martírio desassociado de seu contexto político e de suas repercussões, pois a situação das pessoas mártires da Antiguidade não corresponde ao contexto vivenciado pelos cristãos ocidentais do século XXI. No Brasil, a perseguição cristã às pessoas de religiões afrobrasileiras infelizmente é o que temos de mais parecido com esse contexto. No Rio de Janeiro, já existem favelas onde a fé cristã de tradição evangélica é obrigatória. O crescimento do racismo e da intolerância religiosa é um problema que deve causar grande preocupação aos cristãos que se opõem a essa perseguição.   

O martírio do silêncio: quando negar é sobreviver

E quanto às pessoas cristãs que sucumbiram aos interrogatórios romanos renunciando à sua fé? São situações delicadas em que não é adequado criar um único juízo de valor. A exigência do martírio não era para todos. Por que não evitar a morte dizendo da boca para fora que renuncia à fé, quando pressionado por um sistema opressor e injusto? Afinal, que Deus sádico esperaria que alguém perdesse a vida por não ter agido com sagacidade para poupá-la (Mt 10,16)? “Escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19). Exemplos desse dilema são mostrados no excelente filme “Silêncio” (2016), de Martin Scorsese, em que jesuítas enfrentam violência e perseguição do governo japonês do século 17.

Entre medo e amor: a Redenção de Pedro

Isso me fez lembrar das três negações de Pedro, interrogado durante a Paixão de Cristo (Mt 26,69-75). Imagine o medo que movia Pedro à covardia de esconder quem ele era e sua amizade com Jesus.

Imagine, por exemplo, a situação de pessoas que mentem suas identidades ainda hoje para preservarem suas vidas, seus trabalhos, sua aceitação, etc. São pessoas que negam a si mesmas, a verdade de quem são, para não sofrerem a rejeição dos demais.

Pense no medo que paralisa tantas pessoas LGBTs que vivem “dentro do armário”, recusando assumirem a beleza da diversidade sexual e de gênero sonhada e querida por Deus na Criação, e que poderia se manifestar em sua plena verdade através da vida delas, se elas se sentissem livres e seguras para se darem a conhecer em todos os lugares em que estão.

Muitas dessas pessoas LGBTs, as que tem mais consciência de sua situação de repressão, sentem o peso da renúncia que fazem da verdade divina da diversidade que nelas habita e que elas ocultam. Como Pedro ao negar sua identidade de discípulo de Jesus, muitas pessoas cristãs LGBTs também choram amargamente sua realidade reprimida (Lc 22,62). O risco do martírio familiar, social e profissional não é uma opção fácil. Condená-las por esse escondimento não parece a melhor solução cristã. Se coloque no lugar delas, você teria coragem de se assumir para sua família, seus amigos, em seu trabalho, na sua comunidade de fé?

Depois da Ressurreição, Jesus encontrou-se com Pedro e o acolheu. Jesus o fez sentir-se perdoado por toda experiência de negação que ele experimentou, e lhe deu forças para firmar-se no amor incondicional – ágape (João 21,15-19). Pedro, que já tinha feito a sua transição para discípulo de Jesus, e já tinha até mudado de nome social para estar mais bem identificado com o seu ministério (Mt 16,13-19), agora ganhava forças para enfrentar a vida de frente, até o martírio. E Pedro não estava só, ele pertencia a uma comunidade de fé que o sustentava na caminhada.

Comunidades de fé: sementes de coragem?

A comunidade cristã precisa ser esse lugar em que as pessoas LGBTs façam a experiência pessoal e comunitária do encontro com o amor incondicional de Deus (ágape), para que elas encontrem forças para serem elas mesmas, na verdade que liberta dos ‘armários’.

Infelizmente, ainda hoje, boa parte das pessoas cristãs LGBTs, mesmo dentro do clero católico, não vivem em comunidades de fé que favorecem a experiência do encontro com o amor incondicional de Deus (ágape) que liberta. Por isso, grande parte não está imbuída da ousadia dos primeiros mártires cristãos. A maioria busca a aceitação e a preservação de suas vidas, pois lhe falta testemunhos e uma rede de apoio que as encorajem a ir além.


João Melo é professor, escritor e paulistano. Descendente de retirantes da seca de 1915, no Ceará e Piauí; e de apanhadoras de flores sempre-vivas da Serra Negra, em Itamarandiba (MG). É licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, mestrando em Educação na UERJ. Tem livros e artigos publicados em periódicos, revistas e portais digitais. Atualmente, vive no Rio de Janeiro.

Imagem: Antonio Lizarraga. A Noite do Arco-Íris, 1996. Enciclopédia Itaú Cultural

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Descendentes dos retirantes que enfrentaram a seca de 1915 (PI/CE) e das apanhadoras de flores sempre-vivas ao pé da Serra Negra em Itamarandiba (MG). Paulistano que vive no Rio de Janeiro. Autor de “Entre Eva e Mapana” (Editora Pluralidades, 2023) e de livros da série “Ensaios Teológicos Indecentes” (Editora Metanoia, 2024).

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