Que valor Jesus dava para sua família biológica?
João Melo
Essa pergunta pode ser acompanhada de um mal-estar. É certo considerar que Jesus, o Filho de Deus encarnado na história, poderia não ter tido um comportamento considerado ainda hoje exemplar diante de seus familiares?
A verdade é que os Evangelhos mostram que Jesus foi muito incompreendido, inclusive pelos seus mais próximos. Jesus é considerado por eles como alguém que perdeu o juízo, um exagerado ou radical em seu modo de vida. Daí a decisão de seus parentes de buscá-lo e levá-lo para casa (Mc 3,21). Talvez eles vissem Jesus como aquele que trazia vergonha para a família… Imaginem se Jesus tivesse cedido à pressão de seus familiares e regressado ao seio familiar, o que teria sido de seu projeto de vida, o Reino de Deus?
A “teimosia” de Jesus certamente não foi bem vista pelos seus.
Trata-se de um rebelde sem causa, diriam alguns. Um desalmado, sem respeito pela família, diriam outros. Um sem coração, que não honra o lar de onde veio…
Parece um gesto simples o que pedem de Jesus, o mínimo de alguém bem intencionado que não quer desagradar seus familiares: reingressar ao convívio familiar. Mas aí está a questão, trata-se das condições estabelecidas: o silêncio de si, isto é, de sua identidade messiânica e filiação divina, além da morte do seu projeto de vida, o Reino de Deus. Jesus teria que “deixar para lá isso de ser messias e Filho de Deus” e de anunciar o Reino publicamente. Talvez sua família até tolerasse que ele falasse desses assuntos, mas com discrição, em privado, e não do jeito como vinha fazendo aos quatro cantos.
Só que Jesus não acatou o silêncio de si e de sua missão. O tempo da submissão da infância já tinha acabado (Lc 2,51). Na adultez de sua vida, Jesus elege a sua família: todo aquele que acolhe a Boa Nova do Reino (Mt 12,50).
Essa ruptura não é exclusão da família biológica, antes, é convite para que estes abracem também eles, a novidade do Reino, a vida nova que agora em Jesus se inicia. A generosidade e a abertura de coração de seus familiares é que dirão se estes desejarão seguir no convívio do Cristo, ou se fecharão às velhas formas de permissão de estar no mundo e que desejam novamente enquadrar Jesus e seu ministério. Sua mãe deu conta de abraçá-lo em sua plenitude e missão (Lc 11,27-28). Sobre seus outros familiares, já não sabemos ao certo… O mínimo que se espera de uma família é o acolhimento verdadeiro. Tinham eles ao menos o desejo de desejar compreender Jesus?
É verdade que Jesus terá momentos de reclusão e silêncio, mas esses momentos são de pausa e não de anulação de sua identidade e missão. Nesses momentos de pausa, Jesus buscava um ambiente familiar e acolhedor, como a casa em Betânia (Jo 12,1).
Um profeta não é reconhecido em sua própria casa (Mc 6,4). Não foi uma dinâmica fácil para Jesus e seus familiares. Certamente houve tensão e incômodo de ambos os lados. Mas a fidelidade de Jesus a quem ele é e o que ele está disposto a viver, falaram mais alto.
Jesus não permite perder-se a si mesmo na reclusão familiar. Com coragem, revela onde está seu coração (Mt 6,21), e a hierarquia de seus valores internalizados: o seu projeto de vida, o Reino de Deus, a vida plena para todos, estão em primeiro lugar (Lc 9,59-60).
Esse dilema se impõe hoje no coração de diversos cristãos e cristãs que são incompreendidos em suas famílias, não pela simples divergência de opiniões, porque para isso a chave é o diálogo respeitoso. Não estou falando aqui de diferenças de posições ideológicas, políticas e etc. Mas sim de algo mais além e fundamental. Refiro-me a assumir a identidade de quem se é. Jesus era o messias, o Filho de Deus e não podia mudar isso. Abafar seu messianismo e sua filiação divina não era uma opção porque ser messias e Filho Unigênito de Deus é quem Jesus é, faz parte de sua identidade e modo de estar no mundo.
No caso das pessoas LGBT+, suas orientações sexuais e gêneros são parte de quem elas são. Para muitas delas, a exemplo de Jesus, suas identidades são uma descoberta dos desígnios de Deus em suas vidas. Ninguém opta por ser LGBT+, a pessoa apenas descobre que ela é. Assim, esses cristãos e cristãs LGBT+ conhecem desde o coração que serem quem elas são, é, na verdade, do desejo de Deus. Deixar de esconderem-se constitui sinal de Ressurreição, de vida nova e plena a elas, aquela anunciada por Jesus (Jo 10,10).
Também essas pessoas enfrentam o conflito em submeterem-se a “voltas para o armário” a fim de “honrar” a família, como em eventos familiares… Que o exemplo de Jesus ajude a iluminar o caminho…
João Melo é professor, escritor e paulistano. Descendente de retirantes da seca de 1915, no Ceará e Piauí; e de apanhadoras de flores sempre-vivas da Serra Negra, em Itamarandiba (MG). É licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, mestrando em Educação na UERJ. Tem livros e artigos publicados em periódicos, revistas e portais digitais. Atualmente, vive no Rio de Janeiro.
Imagem: Tikashi Fukushima.Força do Mar. Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira.
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Descendentes dos retirantes que enfrentaram a seca de 1915 (PI/CE) e das apanhadoras de flores sempre-vivas ao pé da Serra Negra em Itamarandiba (MG). Paulistano que vive no Rio de Janeiro. Autor de “Entre Eva e Mapana” (Editora Pluralidades, 2023) e de livros da série “Ensaios Teológicos Indecentes” (Editora Metanoia, 2024).
