Senhor, ensina-me a rezar…

Joana Eleuthério

Creiamos para orar e para que não desfaleça a fé com que oramos, oremos.
A fé faz brotar a oração. E a oração, enquanto brota, alcança a firmeza da fé. 

Santo Agostinho

‘Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
É a criança tão humana que é divina
E esta minha quotidiana vida de poeta,
É por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

(In ‘Poema do Menino Jesus’ de Alberto Caeiro/Fernando Pessoa)

Pensava que não sabia rezar nada além das orações que me ensinaram a decorar mecanicamente – aquelas orações que pareciam tão longe da emoção e ainda mais longe do coração. Agora, depois de algumas décadas de vida, comecei a perceber que viver, respirar, alimentar, estudar, ler, relacionar, brincar … – Tudo pode ser oração, inclusive escrever: poemas, ou mesmo prosas, matérias jornalísticas e parábolas… Só depende de nós e da nossa intenção e atenção. É que a vida vai acontecendo, nós vamos mudando e a nossa oração também.

“Temos de descobrir a nossa própria maneira de rezar. Isto, aliás, vai mudando com o tempo. Vamos dando sentidos novos às palavras do ‘Pai Nosso’, que Jesus nos ensinou. No fundo, a oração muda porque mudamos nós. E também porque continuamente nos encontramos em situações inéditas. Novas imagens de Deus, novas imagens de nós mesmos. Tudo isso, é preciso ‘dizer’, equivale a tomar consciência de que tudo o que vivemos afeta a Deus, e que a nossa relação com Ele se dá por aí.”  (Marcel Domergue)

Hoje eu me sinto privilegiada e muito feliz ao perceber que estou aprendendo a dialogar com o Pai, por meio da verdadeira oração. Também no mais profundo silêncio, esse diálogo amoroso pode acontecer. Basta deixar que Deus faça parte da minha vida porque, apesar dos meus inúmeros tropeços, Ele jamais desiste de mim.

Não podemos tentar nos esconder como os nossos primeiros irmãos, ainda no Paraíso, quando cometemos as nossas faltas. Temos de ter a confiança de filhas e filhos para dialogar, pedir perdão e também a graça de ter os nossos afetos ordenados para seguirmos adiante como auxiliares da construção do Projeto de Jesus – um mundo novo de fraternidade e solidariedade, como é o sonho de Deus. Estamos vivendo em nosso país um momento difícil de viver e de entender, precisamos trazer para a oração também a nossa angústia e as nossas tristezas, sem deixar de pedir que as nossas alegrias e esperanças permanecem vivas e que o Espírito ilumine nossas atitudes e ações. A nossa prece deve estar ‘encarnada’ em nosso corpo e em nossa realidade.

Atualmente, percebo com bastante clareza que não podemos nos descuidar da oração para compreendermos todos os dons e toda a gratuidade do amor incondicional e também correspondermos à graça de termos sido feitos à imagem e semelhança de Deus-Pai. A oração e o diálogo nos fortalecem e nos impedem de desviar do Caminho e detrilhar a dessemelhança, ao invés de acolhermos mais esse dom da Trindade Amorosa. Orar é alimentar a saudável intimidade nessa nossa família divina, para que sejamos, de fato, a Sua imagem em todas as circunstâncias, situações e ambientes da nossa vida cotidiana comum – sem buscar valorizar somente as coisas espetaculares e grandiosas.  Assim, cabe-nos, em perfeita união como todas as nossas irmãs e todos os nosso irmãos, juntar nossa voz à voz de Ana Maria Casarotti:

“Peçamos ao Senhor um coração simples para reconhecer a presença de Deus que sempre está próximo de nós. Ele está ao nosso lado em todo lugar e em todo momento. Não há lugares especiais para dirigir-nos a Deus, é Ele que nos acompanha no nosso viver diário como um Pai que ama e cuida de cada uma de suas filhas e de cada um de seus filhos amados. Assim, confiemos-Lhe nossas necessidades, as carências que há na nossa vida e as necessidades que vemos ao nosso redor. “

Como o papa emérito disse uma vez, “A paternidade de Deus, então, é amor infinito, ternura que se inclina sobre nós, filhos frágeis, necessitados de tudo”(Bento XVI). Nós, filhas e filhos frágeis, sentindo-nos até mesmo desamparados e, muitas vezes, ficamos desapontados com a resposta ao nosso pedido, ou aflitos e inquietos com a sua demora. Contudo, devemos observar Jesus, na sua ilimitada confiança no Pai – fazer o que nos cabe e aguardar a alegria da ‘ressurreição’. E, nesse momento em que estamos assistindo a vida dos mais frágeis de nossa sociedade brasileira e mundial ser totalmente desrespeitada, juntemos a nossa voz a do Papa Francisco, cujo desejo e a esperança são de que ‘a injustiça não tenha a última palavra‘.

Amém!

Brasília (DF), 28 de julho de 2019.


Joana Eleuthério é graduada em Letras. servidora pública aposentada da Secretaria de Estado de Planejamento, Orçamento e Gestão do Distrito Federal.

Imagem: Portinari, 1955. Dança de roda.

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Caminhante sem nenhuma linearidade e com variados interesses.

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