Simone Weil – Uma Virtude Sobrenatural

Ligia de Medeiros *

O livro Espera de Deus, de Simone Weil, página após página, apresenta a reflexão de uma alma que foi profundamente tocada por uma opção de vida que conjugava teoria e práxis em coexistência perfeita. A formação em filosofia da autora, aliada a um intenso convívio com operários da Renault, a experiência de ter lutado ao lado da Resistência Francesa e na Guerra Civil Espanhola, de ter sido feita prisioneira em campo de concentração, de ter passado fome voluntariamente por se recusar a receber alimento diferente dos seus colegas operários, mostra uma vida em estrita coerência até o fim, apesar de ter vivido sempre à margem das instituições religiosas, políticas ou intelectuais.

A sua trajetória fez com que a sua saúde fosse abalada, fazendo-a sucumbir aos 34 anos de idade em um sanatório do próprio campo.  Deixou em livros, cartas e estudos os registros dos seus pensamentos de lucidez desconcertante.  Depois de Santa Teresa d’Ávila, Simone Weil é a minha mais recente descoberta; com o seu exemplo, ela aumenta nos seus leitores os horizontes na busca pela santidade. No livro Espera de Deus, diante de tantos pensamentos descritos com rigor cirúrgico (sua marca registrada), um deles me tocou especialmente – o que aborda a questão da maldade, tema que, volta e meia, traz à tona a polêmica questão: como Deus permite a maldade no mundo, sendo Ele tão bom e perfeito?

Simone começa dizendo que o fato do mal existir não vai contra a realidade de Deus, mas, ao contrário, revela-O na sua verdade. Para a autora, a Criação é, da parte de Deus, não um ato de expansão, mas de renúncia, de retraimento. Deus, na relação com as criaturas, esvaziou-se de Si uma parte do ser.  Esvaziou-se neste ato da sua divindade – é por isso que São João da Cruz diz que o cordeiro foi degolado desde a criação do mundo.  Deus permitiu que existissem coisas distintas dele, e valendo infinitamente menos do que Ele.  Como Cristo pede que nos neguemos a nós mesmos, Ele negou-se, em atenção a nós, para nos dar a possibilidade de nos negarmos por Ele. Esta resposta é a única justificação possível para a loucura de amor do ato criador.

Quando eu acolho um ser humano que se encontra reduzido à infelicidade, ao estado de coisa passiva e inerte, dou condições para que ele regresse, ainda que temporariamente, ao estado humano. A generosidade de um permite que se viva neste momento uma relação de genuína caridade. O ato generoso acontece quando, em pensamento, eu me transfiro para o outro; quando me nego a mim mesmo e me esvazio para acolher o próximo. Esse acontecimento é engendrado do alto, portanto, tratar o desprezado com amor, é como batizá-lo pela água e pelo espírito. Generosidade e compaixão são inseparáveis e encontram o seu modelo em Deus, a saber, na Criação e na Paixão.  Esse amor sobrenatural, que se produz como um relâmpago, é a troca de compaixão e gratidão entre dois seres – um dotado e um privado da qualidade de pessoa humana. O privado de tudo, aquele que não tem nome, e que mal se apercebem dele, recebe a atenção de um que se detém por um momento, e o vê como alguém que sofre. Essa atenção é criadora, mas no momento que acontece, é de renúncia – isso se a compaixão é pura. Eu aceito uma diminuição, aceito gastar uma energia que não me aumentará o poder, farei existir outro ser para além de si, e, mais profundamente, passo a tomar parte no estado de matéria inerte em que o outro se encontra. E, em ambos, no desprovido e no seu benfeitor, existe a percepção de que é melhor não dominar onde se tem poder para tal. O princípio de renúncia constitui a base da verdadeira fé, porque relança o bem para fora deste mundo, para onde estão todas as fontes de poder. A atenção criadora consiste em prestar atenção ao que não existe: a humanidade não existe na carne anônima e inerte à beira da estrada. Uma canção espanhola diz que :”se alguém quer fazer-se invisível, não há meio mais seguro do que ficar pobre”. O amor vê o invisível, assim como a fé.

O amor ao próximo é o amor que desce de Deus em direção ao homem. Deus tem pressa de descer em direção aos infelizes. Assim que uma alma se dispõe a dar o seu consentimento, Deus precipita-se nela para poder, através dela, olhar e escutar os infelizes. Só com o tempo a alma toma consciência dessa presença. Mas, veja bem: Deus não está presente, mesmo se invocado, onde os infelizes são simplesmente uma ocasião para fazer o bem. Porque então, eles encontram-se no seu papel natural, no papel de coisas.  São amados impessoalmente. É necessário trazer ao seu estado inerte, anônimo, um amor pessoal. No amor verdadeiro, não somos nós que amamos os infelizes em Deus, é Deus em nós que ama os infelizes. A gratidão e a compaixão descem de Deus e, quando se permutam num olhar, Deus está presente no ponto em que os olhares se cruzam. O infeliz e o outro amam-se a partir de Deus, através de Deus, mas não por amor de Deus; eles amam-se por amor um do outro. Isso é algo tão extraordinário que não se opera senão por intermédio de Deus.

Que Santa Simone Weil nos faça ver que a beleza do mundo não está no mundo em si, mas na nossa sensibilidade, que deve estar apta a perceber o que está oculto e que caminha contranatura, pois o mundo, por si mesmo, não se detém para enxergar o desprovido na sua humanidade divina.

— Janeiro 2019

 


* Lígia de Medeiros é artista, designer, educadora e carioca.

Biografia Espiritualidade

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