O que devo fazer?

Luciano Fazio

O episódio do encontro de Jesus com o jovem rico (Mc 10,17-30) é conhecido. No passado, o entendi como uma crítica do apego aos bens materiais, um pouco no estilo da sentença “Não se pode servir a Deus e ao dinheiro”. Já hoje, o texto me disse muito mais.

Não sou rico ou interessado em acumular fortunas, mas me reconheço no jovem rico e nos equívocos dele. O jovem em questão conhece bem a lição de Deus, resumida por Jesus nos mandamentos que dizem respeito aos outros e que reflete aquela que hoje chamaríamos de mensagem ética. Hoje, a esses mandamentos poderíamos adicionar outros, tais como “Cuidais da casa comum”, “Libertais os oprimidos”, “Respeitais as diferenças”… O jovem rico vê Deus como o mestre de uma grande lição ética e pergunta a Jesus se há algo a mais que “devo fazer”.

Jesus o surpreende, ao lhe pedir algo para além da ética: o desapego e uma mudança radical para pôr-se na perspectiva do Reino. É um convite de preço alto demais para o jovem. Por que ele não foi capaz de aceita-lo? A resposta guarda relação com a fé, ou seja, depende de quem é Deus para ele. Possivelmente, ele teria respondido que Deus é quem o ensina a viver com a retidão, que é a garantia da salvação no fim da vida. Nada de errado (o próprio Jesus “olhou para ele com amor” ao saber da vida ética que ele conduzia), mas algo insuficiente. A fé não se confunde com o aprendizado de lições que nos tornam autossuficientes, dispensando a necessidade de conversão e da salvação que vem Dele. Talvez o jovem rico entendesse a afirmação: ‘O Senhor é meu pastor, nada me faltará’ como “Estou no caminho certo, por isso nada me falta”.

O encontro com Jesus desvela a deficiência de fé do jovem rico. A riqueza dele não é só material. É também de postura: para ele o que sabe e o que faz o salvarão.

A fé é uma relação pessoal com Deus. Significa escutá-lo, falar com Ele, confiar nele, estar aberto a redesenhar a vida a partir de provocações e do perdão dele. Pode significar colocar-se em discussão, fazer apostas que nos tiram do sossego… A fé pode parecer ilógica e ingênua. Como a escolha de Abrão que é chamado a sair da sua terra, sem saber bem aonde iria. Ou como a de Pedro que inicia a caminhar sobre as águas ao encontro de Jesus… A fé nos move, nos transforma, nos questiona…

Sim, a riqueza de que fala o Evangelho de hoje não é apenas a riqueza de bens. Diz respeito a tudo que nos traz autossuficiência. Essa implica em dificuldade de amar, na não procura de quem nos salve, na falta de disponibilidade em mudar a si mesmo e à sua vida.

O trecho do evangelho de hoje me ajuda a entender as bem-aventuranças: “Felizes os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos Céus”. Não creio ser possível ter fé em Deus sem sentir-se pobre diante Dele, necessitado da graça Dele. A fé nos enriquece, pois não nos sentimos ricos sem ela. Parece-me que os discípulos entenderam que os equívocos do jovem rico não são só dele, pois diante do desabafo de Jesus acerca da dificuldade de os ricos entrarem no Reino de Deus, perguntam: “Então, quem pode ser salvo?”.

Imagem: Tomie Ohtake — Sem Título, 1971 (serigrafia sobre papel). Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira.

Palavra de Deus

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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