Fraternidade com os Migrantes

Luiz Fernando Krieger Merico

Mística do século XXI — programa nº24

Reflexões a partir das encíclicas
Laudato si’ e Fratelli tutti

Na carta encíclica Fratelli Tutti, o papa Francisco toca, apropriadamente, no tema migrações, e na acolhida ao migrante como uma importante dimensão da fraternidade. É um tema que tem muita relevância para nós latino-americanos. Somos um povo formado por imigrantes, forçados, no caso dos pretos africanos, ou escapando da fome no caso dos imigrantes europeus que se dirigiram para cá. Hoje somos um povo que emigra. Brasileiros tem emigrado muito nos últimos anos em busca de melhores condições de vida. E virão agora um novo tipo de migrante: os migrantes ambientais, os que fogem da devastação do meio ambiente, que são cada vez em maior número. Migrações são, portanto, uma realidade no mundo de hoje, e o desafio é dar condições ao migrante para “realizar-se plenamente como pessoa”.

Quando o próximo é uma pessoa migrante, sobrevêm desafios complexos. O ideal seria, sem dúvida, tornar desnecessárias as migrações e, para isso, o caminho é criar reais possibilidades de viver e crescer com dignidade nos países de origem, e encontrar aí as condições para o próprio desenvolvimento integral. Mas, enquanto não houver sérios progressos nesta linha, diz a Fratelli Tutti, é nosso dever respeitar o direito que tem todo o ser humano de encontrar um lugar onde possa não apenas satisfazer as necessidades básicas dele, mas também de sua família. O papa Francisco resume em quatro verbos os esforços que se deve fazer a favor das pessoas migrantes: acolher, proteger, promover e integrar. Com efeito, «não se trata de impor programas assistenciais, mas de percorrer um caminho para construir cidades e países que, mesmo conservando as respetivas identidades culturais e religiosas, estejam abertos às diferenças e saibam valorizá-las em nome da fraternidade humana.

Isto implica em ter respostas concretas, sobretudo em benefício daqueles que fogem de graves crises humanitárias. A Fratelli Tutti dá exemplos do que pode ser feito: incrementar e simplificar a concessão de vistos, adotar programas de patrocínio privado e comunitário, abrir corredores humanitários para os refugiados mais vulneráveis, oferecer um alojamento adequado e decente, garantir a segurança pessoal e o acesso aos serviços essenciais, assegurar uma adequada assistência consular, a possibilidade de abrir contas bancárias, dar-lhes liberdade de movimento e a possibilidade de trabalhar, proteger os menores e assegurar-lhes o acesso regular à educação, prever programas de custódia temporária ou acolhimento, garantir a liberdade religiosa, promover a sua inserção social, favorecer a reunificação familiar e preparar as comunidades locais para os processos de integração. O desafio aqui é enxergar o outro, o migrante, não como inimigo, mas como alguém portador de histórias, culturas e valores que podem enriquecer o habitante local e, na troca, ambos saírem mais humanizados. Assim como num jardim a diversidade constitui beleza, nas relações humanas, a diversidade cultural faz a riqueza. Mas o Papa chama atenção também para o espírito de gratuidade, isto é, “a capacidade de fazer algumas coisas simplesmente porque são boas em si mesmas, sem preocupação com ganhos ou recompensas pessoais” Simplesmente acolher o outro. Há países que só querem receber poderosos e investidores, e onde os migrantes são vistos como usurpadores, perigosos ou inúteis. Coloquemo-nos alguns minutos na pele de um migrante e pensemos: qual é a sociedade que estamos construindo?

Ouça no Podcast Ignatiana

Encíclicas ecofraternais do Papa Francisco

Laudato si’, sobre o cuidado da casa comum (2015)
Fratelli tutti, sobre a fraternidade e a amizade social (2020)

Luiz Fernando Krieger Merico é graduado em Geologia (UFPR), mestre em Análise Ambiental (UNESP), doutor em Geografia (USP), possui aperfeiçoamento no Schumacher College (Inglaterra) em Economia Ecológica. É autor do livro A transição para a sustentabilidade.

Ecologia Mística do século XXI

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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