Sobre vacinas, modificação do genoma e uso de células fetais

José Andrés Yunes

Algumas pessoas e setores da mídia tem divulgado notícias sobre o uso de fetos humanos para a produção de vacinas contra a COVID-19, trazendo à tona a questão do aborto. Na condição de membro da Comunidade de Vida Cristã (CVX; Associação de leigos da Igreja Católica), defensor da vida desde a sua concepção e especialista com mais de 30 anos de experiência prática na área de engenharia genética e biologia molecular, gostaria de dar minha contribuição ao debate sobre esse tema específico.

Acredito que muitas das opiniões que circulam no momento confundem:

  1. terapia celular
  2. terapia gênica e
  3. produção de fármacos da classe dos biológicos.

1. A terapia celular é um tema que despertou muita atenção há cerca de 15 anos, especialmente pelo uso de células tronco embrionárias para fins de medicina regenerativa como, por exemplo, o tratamento de lesões da medula espinhal. Aqui sim, era justificável a polémica sobre uso de células de embriões humanos, que depois parece ter sido solucionado com o uso de células tronco de adultos.

2. A terapia gênica é assunto mais recente e, por sua vez, visa a modificação do genoma de algumas células do paciente para fins terapêuticos. Tem sido usada com sucesso, por exemplo, na modificação de células de defesa do sangue (glóbulos brancos) de pacientes com câncer, de modo a induzir uma resposta imune contra a doença. Por experiência, posso assegurar que não é nada fácil modificar geneticamente as células humanas e mantê-las vivas. No caso da imunoterapia celular, por exemplo, é preciso coletar o sangue do paciente, isolar os linfócitos T, cultivá-los in vitro e introduzir neles o gene de interesse, para então retornar essas células modificadas ao paciente. Portanto, não é com uma simples vacinação, que se consegue modificar ou editar o genoma de um ser humano. Se fosse assim tão fácil, já teríamos alcançado a cura de várias doenças hereditárias, o que não é o caso. Neste contexto, é importante refutar, de forma categórica, que as vacinas contra a COVID-19 disponíveis no mercado sejam capazes de modificar o genoma humano. As vacinas à base de vírus utilizam, intencionalmente, vetores virais que não se inserem no genoma humano e as vacinas de RNA agem fora do núcleo, portanto, longe do genoma.

3. Produção de biológicos: proteínas, anticorpos e vacinas pertencem à classe de produtos biológicos de uso farmacêutico. A produção dos mesmos pode ser feita em ovos embrionados (fecundados) de aves ou em células oriundas de mamíferos, inclusive do homem, ou em células de bactérias ou de insetos, entre outros exemplos. As células de mamíferos foram geradas há décadas atrás quando os cientistas estavam aprendendo a cultivar células in vitro. Normalmente a cultura destas células in vitro não dava certo, mas em alguns casos os cientistas obtiveram células com capacidade ilimitada de multiplicação in vitro, dando origem às assim chamadas “linhagens celulares”. Com o tempo e as colaborações do mundo acadêmico, estas linhagens celulares acabaram sendo distribuídas para milhares de laboratórios de pesquisa e tem sido usadas em estudos de biologia celular, genética, virologia etc. A vacina da Astra Zeneca/Oxford é produzida em uma linhagem celular derivada de rim humano e a Coronavac é produzida em uma linhagem celular derivada do rim de um macaco africano.

Não é o caso, mas se células tronco derivadas de embriões ou fetos humanos fossem consideradas para a produção de vacinas ou biológicos, elas não se prestariam a isto. As células tronco demandam condições de cultura in vitro bastante complexas e de difícil realização, o que impossibilita sua aplicação em escala industrial. Por outro lado, as células usadas para fins de produção de vacinas e medicamentos biológicos, além de serem linhagens celulares, com capacidade ilimitada de replicação, e estarem já adaptadas à cultura in vitro, também têm sido modificadas no laboratório para suportar as condições estressantes de cultivo em escala industrial.

Em suma, é irreal imaginar que abortos devam ser realizados para a produção de vacinas, assim como é fantasioso imaginar que com uma vacina seja possível editar o genoma do indivíduo.

Campinas (SP), 7 de fevereiro de 2021


José Andrés Yunes é Doutor em Genética e Biologia Molecular pela UNICAMP, fez pos-doutorado no Dana-Farber Cancer Institute (Boston, EUA). É Pesquisador 1D do CNPq, trabalhou durante a pós-graduação com engenharia genética de plantas e na área de genética do câncer a partir de 1997. Pertence à comunidade CVX Nossa Senhora da Estrada há mais de 20 anos.

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2 comentários Deixe um comentário

  1. Que explicação oportuna e bem vinda! Quantas bobagens e absurdos ouvimos no nosso dia! Como uma leitura como essa acalma nosso coração! Estou muito feliz de ter- me inscrito neste blog. Obrigada pelos posts , todos de muita qualidade ! Entrei depois que li uma reflexão do Padre Adroaldo e estou sendo surpreendida a cada dia por um conteúdo que além de informar me acalma. Deus os abençoe 🙏

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