Atitudes na Quaresma

Luiz Fernando Krieger Merico

Mística do século XXI — programa nº14

Reflexões a partir das encíclicas
Laudato si’ e Fratelli tutti

Semana que vem iniciaremos o período da quaresma. E isso em meio a um mundo desumanizado, degradado ambientalmente, sacudido pela violência física e política, pandemia e intolerância, muita intolerância. Entretanto, o tempo Quaresmal pode ser um momento privilegiado para que deixemos transparecer no mundo a missão de seguidores e seguidoras do Ressuscitado.

A Quaresma pode ser o ponto de partida de uma transformação de vida; os quarenta dias de duração são um tempo propício para expandir a vida em novas direções, rompendo com aquilo que é rotineiro, estreito e atrofiante. Este tempo pode expandir nossos sentidos, ativar nosso olhar e nossa escuta e sentir a realidade que nos envolve – atitude necessária para sair do piloto automático que em muitos momentos dirige as nossas vidas. Se esse tempo for aproveitado para nos reorientar, o ano se tornará pequeno para aquele que vive uma existência com mais intensidade, coerência e solidariedade.

São três as dimensões que a liturgia nos convida a refletir e praticar: jejum, caridade e oração. À luz das encíclicas Laudato Si’ e Fratelli Tutti, como poderíamos interpretar essas três tarefas para o período quaresmal?  

Há uma matriz de relações que nos conecta conosco mesmos, com os outros, com a natureza e com as outras criaturas – além de nos conectar com Deus – se assim nós permitirmos.

Pensando nesta matriz intrincada de relações, o que poderia ser o jejum? De que jejuar e com o que saciar-nos nesse período?  Podemos jejuar de algum consumo nocivo ao meio ambiente. Bom momento para refletir no impacto ambiental de meu consumo pessoal. O que eu provoco no mundo com meu consumo? Meu consumo ajuda a fazer um mundo melhor ou só colabora para mais destruição?  Além desta reflexão eu posso buscar me saciar mais com a contemplação da vida, do sol, da beleza do céu ou do ar que respiro. Saciar-me com ar puro respirado na manhã. As práticas quaresmais que a liturgia busca ativar devem ir mais além de nós mesmos: elas devem ter impacto na relação com os outros, em especial com aqueles que mais sofrem e se encontram mais excluídos. O jejum ativa o dinamismo que nos faz mais compassivos, solidários, misericordiosos.

A caridade sempre esteve ligada à compaixão e piedade. Quem partilha do que tem é compassivo e misericordioso. É uma solidariedade efetiva, pois trata-se, fundamentalmente, da inclinação para os desfavorecidos. A caridade, que é a misericórdia em ação, é uma atitude central para o cristão. Uma das suas qualidades mais atraentes é precisamente sua capacidade para criar laços de comunhão. Se cada um põe seus dons e bens a serviço dos outros e se deixa socorrer em suas necessidades, criará verdadeira comunidade. Doar nosso tempo para melhorar a comunidade em que vivemos é caridade. Como está a coleta seletiva de lixo em nossa vizinhança? E a gestão dos espaços verdes, o plantio de árvores, a construção de calçadas? Como está o transporte coletivo na minha comunidade? Doar tempo para ajudar causas comunitárias nos faz enxergar as demandas mais imediatas e também as mais amplas.

Finalmente a oração. Quando alimentamos nossa vida interior, somos menos artificiais, nos fixamos mais naquilo que nos é dado continuamente como graça, vivemos em contínua gratidão por estarmos rodeados de ternura e beleza, mesmo em meio às situações conflitivas. A oração vai fortalecer o nosso jejum e caridade para a construção de um mundo mais fraterno e sustentável, pacificados com a natureza que nos sustenta e alimenta. Jejum, caridade e oração não são um evento, mas um modo de proceder que tem ressonância na nossa vida. Por isso mesmo, tais práticas quaresmais são uma autêntica revolução e uma alternativa para viver com sentido.

Ouça no Podcast Ignatiana

Encíclicas ecofraternais do Papa Francisco

Laudato si’, sobre o cuidado da casa comum (2015)
Fratelli tutti, sobre a fraternidade e a amizade social (2020)

Luiz Fernando Krieger Merico é graduado em Geologia (UFPR), mestre em Análise Ambiental (UNESP), doutor em Geografia (USP), possui aperfeiçoamento no Schumacher College (Inglaterra) em Economia Ecológica. É autor do livro A transição para a sustentabilidade.

Ecologia Mística do século XXI

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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