Coração de caipira

Pe. Manuel E. Iglesias, SJ

O ser humano está “voltado para o outro”, feito para a comunicação. O nosso coro está cheio de portas, janelas, antenas, transmissores…

— Será que estou fazendo-me entender?

É o tipo de pergunta que frequentemente nos colamos quando tentamos nos comunicar comum grupo de pessoas. Se um grupo de ouvintes é sofisticado, você nunca sabe. Permanece silencioso, imóvel e, geralmente, inexpressivo.

Por isso é tão gostoso falar para um grupo de gente simples. Quando eles estão sintonizando, logo começam a fazer gestos com a cabeça e até dá para escutar:

— Foi, sim senhor!
— É isso mesmo!
— É isso aí que aconteceu com a gente!

Você sente que sua palavra está tendo “eco”.

Este jeito de caipira facilita a comunicação. É sinal de receptividade, de acolhimento, de escuta.

O nosso mundo está precisando não apenas de gestos de caipira, mas de corações de caipira. Gente que “lá dentro” sabe acolher, compreender, sorrir, chorar. Pais, colegas, funcionários, médicos, professores, padres…

O coração de caipira é essencial para que possa existir uma comunicação profunda entre os homens. E também para nos comunicarmos com Deus.

“Ouve, Israel …” Ouvi…. “Escutai”…

“Ouvir” e “acolher” a palavra de Deus, segundo o sentido hebraico, não é somente prestar-lhe ouvidos atentos, mas abrir-lhe o “coração” (At 16,14).

O coração que eu chamo de caipira. Coração de pobre. O coração de Maria de Nazaré.

Na parábola da semente, a palavra, que é o Evangelho, é recebida diferentemente pelos seus diversos ouvintes: todos “ouvem”, mas só os que a “compreendem”(Mt 13,23) ou a “aceitam” (Mc 4,33) ou a “guardam” (Lc 8, 15) chegam a vê-la produzir neles seu fruto.

Pode acontecer eu a gente saiba uma passagem da bíblia até decorada. Pode até ter pregado aos outros sobre esse texto. Mas pode também acontecer que se trate de um saber apenas de cabeça, sem eco no coração. Semente cientificamente conhecida, mas sem terra onde poder germinar.

Gostaria muito, amigo leitor, que você agora se perguntasse:

  1. Será que eu tenho “gestos de caipira” quando escuto as pessoas? Sei “perder tempo” para atender as pessoas, até as que não me resultaram simpáticas? O outro percebe que eu o escuto sem fazer um grande sacrifício e sem chateação?
  2. Será que os outros reconhecem em mim um coração de caipira? Alguém sabe rir e chorar om eles. Gente capaz de sair de si e caminhar ao seu lado. Arriscar por eles. Perder tempo, sono, dinheiro, vida por causa deles. Gratuitamente?

Se você tiver gestos e coração de caipira você entenderá o que é rezar. Oração é comunicação. Quem reza deixa que o seu ser vibre comas moções do Espírito, assim como a folha da árvore vibra sob o sopro da brisa e do vento.

Você abrirá a bíblia e saberá ler, ouvir, sentindo o eco. Deixará se questionar. Procurará fazer da sua vida uma resposta de vida e de amor. Descobrir que há em você um pouco de Moisés, de Pedro, de Pilatos e até um pouquinho de Jesus de Nazaré.

Lembre-se do coração de caipira em todos os capítulos deste livro, em todos os “papos” da sua vida e sempre que você rezar.

Deu para fazer-me entender?


IGLESIAS, Manuel E. Um retiro com São João e o Êxodo. São Paulo: Loyola, 1980. 88 p.

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