Ao mestre, com carinho

Lylia Diógenes

A vida da gente é uma caminhada, uma viagem, um êxodo.

Manuel E. Iglesias

A frase, objetiva e direta, assim como eram as palavras do autor, me chamou a atenção nesse dia de dor, quando sofremos sua perda.

O comunicado da partida do padre Iglesias me pegou despreparada. Não quero acreditar que ele se foi. Uma dor profunda se apossou de mim. Corri para me consolar nos seus livros, como, se os lendo, pudesse ainda, senti-lo vivo no meio de nós.

Peguei uma de suas relíquias: Um Retiro com São João e o Êxodo, um exemplar dele mesmo, datado do ano de 1980. O livrinho, todo rabiscado, com anotações de seu próprio punho com sugestões de alterações para a 2ª edição.  A dedicatória era “aos jovens da Pastoral da Juventude de Brasília e aos noviços jesuítas que me ajudaram a caminhar com Jesus hoje”.

Comecei então a folhear. A cada página uma emoção diferente. É nele que consta, pela primeira vez, duas histórias tão queridas por ele e que nos contava com tanta emoção: “Coração de Caipira” e “Olhar de cego”.

Duas histórias vividas por ele e que falavam da importância dos gestos simples, do sentir com o coração.

“Lembre-se do coração de caipira em todos os capítulos deste livro, em todos os papos de sua vida e sempre que você rezar. Deu para entender?”, provocava ele.

“O nosso mundo está precisando não apenas de gestos de caipira, mas ainda de corações de caipira. Gente que ‘lá dentro’ sabe acolher, compreender, sorrir, chorar. Pais, colegas, funcionários, médicos, professores, padres…”

Talvez essa tenha sido uma das maiores lições que ele me transmitiu: a beleza das coisas simples, do olhar além das experiências, enxergar o interior.

Quando eu me encontro com alguém, eu logo sinto se a pessoa é triste ou alegre; se ela está animada ou se enfrenta um problema. Às vezes, até sinto quando a pessoa está doente, mesmo sem ela saber. E é só no final que me pergunto como será a pessoa por fora. Se é jovem, se é velha, alta, baixa, feia ou bonita… Vocês, porém, olham a pessoa de fora pra dentro e muitas vezes ficam mesmo por fora. Quando vocês não vão com a cara dela não dão mais bola. E assim vocês perdem a riqueza da pessoa, o que tem lá dentro, entendeu agora?

Essa era a mensagem dita pelo cego que o Pe. Iglesias uma vez encontrou e que tanto lhe marcou ao contar-lhe que  era cego “graças a Deus”. E ao perguntar-lhe o porquê, ele deu essa lição de vida como resposta.

Padre Iglesias era cheio de histórias assim, vividas e gravadas por ele em sua alma. Histórias que ele fazia questão de partilhar conosco e, com isso, nos mostrar o que realmente era importante nessa vida.

Ele foi fundamental na minha formação religiosa e pessoal. Uma pessoa que me trouxe uma nova visão de Deus: um Deus de amor, um Deus misericordioso.

Seu sorriso largo e os braços abertos com que nos recebia ao adentrarmos o Centro Cultural de Brasília (CCB) era sua marca registrada. Com ele não tinha tempo ruim. Sempre estava de bom humor, sempre pronto a nos ouvir, a dar a mão, a caminhar conosco.

Dava importância a cada um de nós, como se fôssemos o “mais querido” por ele. Lembrava dos detalhes de cada um, perguntava pelo pai, pela filha, pelo trabalho…e outros detalhes que só ele mesmo era capaz de guardar.

Aos 87 anos, um jovem, sempre cheio de planos, sempre com ideias para evangelizar esse mundo de meu Deus. Entusiasmado, seus olhos brilhavam ao falar de um novo projeto. Trazia Deus para perto de nós. Nunca parava de criar e de tentar tornar o mundo um lugar mais digno para se viver.

Um dos seus últimos projetos foi tornar acessível, nestes de tempos de pandemia, os Exercícios na Vida Cotidiana (EVC), juntamente com outros jesuítas, em uma modalidade totalmente inovadora, on-line, beneficiando mais de 600 pessoas. Uma benção!

E nos últimos meses, estava se dedicando a concluir um livro – “O olhar transformador de Jesus”. Mais uma preciosidade para nós. Na sua humildade ainda se questionava: ”será que vale a pena publicar?”.  Claro que valia, e muito, mas infelizmente não deu tempo.

Quanta coisa nos deixou Pe. Iglesias. Quantos ensinamentos. O maior deles talvez tenha sido o jeito simples de encarar a vida, de nos transmitir tanta sabedoria, tanta vivência. Entendeu, como poucos, que “a simplicidade é o último grau de sofisticação”, como já disse Leonardo da Vinci.

Quanta falta o senhor vai nos fazer, Pe. Iglesias!
“A falta que ama” , como já bem disse Drummond.

E com ele, me despeço do senhor, sabendo que, a morte não vai tirá-lo de nós, mais do que nunca o senhor estará espiritualmente no meio daqueles que tanto o amaram e o continuam a amar.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade, no poema “Memória”.

Notas de revisão da 1ª edição do livro Um Retiro com São João e o Êxodo

Jesuítas

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

1 comentário Deixe um comentário

  1. Muito tocada e agradecida por ter tido acesso a alguns escritos de Pe Iglesias. Atualmente estava meditando com o Livro Olhar para dentro.
    Gratidão Pe Iglesias, não o conheci pessoalmente, mas o sentimento é de quem conviveu com esta alma encantadora.
    Descanse me paz.

    Curtir

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