O Tigre que adorava pato no tucupi e tomava mingau no Ver-o-Peso

João Carlos Pereira

Na teoria, sempre soube a diferença entre uma personagem e uma pessoa. Na prática, custei a entender quem era quem. Por muitos anos, fui personagem de mim mesmo, vivi entre a pele daquele que mandava para o campo de batalha, quero dizer, a vida, e o que se recolhia em si mesmo para ocultar sua fragilidade. Custou, custou muito, mas consegui sincronizar as duas imagens – a personagem e o ator, digamos assim – numa só: eu. Há pessoas que dispensaram a máscara e foram ou elas mesmas ou sua personagem em tempo integral. No caso do jornalista e advogado Isaac Soares, ele e sua personagem, que também atendia pelo nome de Isaac Soares, eram uma só pessoa. A mesma e adorável criatura, que passou pela vida como se fosse um anjo. Uma unanimidade do bem. Feito raro, nesta cidade que não pode ser chamada de “muro baixo”, porque nem muro tem.

Isaac era judeu e advogado. Tinha pretensões políticas, tanto que foi eleito vereador duas vezes e vice-prefeito de Belém. Quando Magalhães Barata bateu o olho nele, numa visita que fez à Escola Normal, onde estudava, sabia que estava diante de um político e o levou ao PSD, onde desenvolveu carreira meteórica. Era um bom orador e dono de uma imensa simpatia. Não aquela simpatia quase inerente a homens com a cintura largamente redonda, como a dele e a do Jô soares, por exemplo, mas aos homens de alma pura, quase ingênua. Como essas duas características são incompatíveis com o sonho que acalentava, saiu dos gabinetes onde acontecem os conchavos e, depois de haver sido corretor de câmbio e representar em Belém a Revista “Manchete”, se transformou no “Tigre”. Como, em sua coluna, chamava os homens de “tigre” e as mulheres de “pantera”, acabou ele mesmo virando Tigre. Ou Tigrão.

Quando o golpe de 64 ceifou-lhe o projeto de vida, o jornalismo o acolheu. O bom trânsito entre todas as camadas da sociedade contribuiu para se transformasse no “Fred´s”, titular da coluna social do “Flash”, jornal editado pelo Grupo “Folha”, dono da “Folha do Norte” e da “Folha Vespertina”. Um dia o regime militar percebeu que não oferecia “risco” à sociedade, aposentou o pseudônimo e passou a assinar a coluna com seu próprio nome, na “Folha do Norte”. Em 1978, cansado de guerra e desnutrido, , o jornal foi comprado por Romulo Maiorana e Isaac passou para “O Liberal”, onde se transformou no “Tigre”.

No auge de sua forma, saía de seu apartamento, no Edifício “Importadora”, e rumava para a representação da Revista Manchete, na rua Santo Antônio. Depois descia a 1º. de Março e entrava no edifício que, no passado pertenceu à Folha e, depois, ao Liberal. Sua mesa ficava no final da Redação, bem perto da sala das Telefotos. Para um leitor que nem imagina o sentido dessa palavra, preciso apelar para a imaginação. Tratava-se de um sistema de recepção de fotografias enviadas através de sinais telegráficos ou de rádio, as radiofotos. A imagem era codificada e depois impressa em papel fotográfico. No laboratório fazia-se a revelação. Saía uma foto, quase sempre horrível, no tamanho de meia folha de um A-4. Era o que de melhor se dispunha nos anos 80 para publicar, por exemplo, a imagem do Papa ou do plenário da Câmara dos Deputados. Em 40 anos, tanta coisa mudou, que me dá a impressão de estar falando da idade da pedra lascada.

Durante a manhã, a Redação do jornal parecia um deserto. Repórteres na rua, quase ninguém, a não ser o Alírio Sabbá, o chefe de Reportagem, na época o Anselmo Gama, um ou outro repórter, o contínuo, que passava com uma bandeja de café, o senhor que consertava as máquinas de escrever e, uma vez por semana, trocava as fitas (acho que o nome dele era Guilherme, única criatura capaz de recuperar esferas da máquina elétrica), o diretor João Pojucan de Moraes, que praticamente não saia do jornal, o Isaac e eu. Como morava perto, às vezes ia almoçar em casa, descansava e voltava para acompanhar o fechamento da coluna. Se havia compromisso à noite, almoçava no restaurante da empresa, onde o prato custava um real e, à noite, servia sopa grátis. Depois, ia embora de vez.

Por muitos anos, entregou seu material às três da tarde. A Regina Alves, com quem muito aprendi a quem devo bastante do que sei, ficava responsável pela revisão. Por um vício de datilografia, nunca escrevia a palavra “pajem” da forma certa e, no lugar do j, usava g – “pagem”. Era o único desvio que cometia, porque, em geral, seu texto não dava trabalho. Uma reestruturação das atividades me incumbiu da tarefa de coordenar o noticiário do caderno de cultura. O Isaac era publicado lá. Aos poucos, a entrega da coluna começou a atrasar. Cada vez terminava mais tarde. De 3 passou para 4, para 5, para 6, para 7. Quando eu ia cobrar, me dizia: “sabe o que é? As colunáveis dormem à tarde e só consigo falar com elas depois de 5 horas.” Era desculpa, claro. Estava ficando lento. A idade começava a pesar.

Uma vez, perto de 10 da noite, o pobrezinho ainda se debatia sobre a máquina. Como eu precisava fechar o caderno, tinha de apressá-lo. Ele passou a me chamar de “fiscal” e ficou meio de mal comigo. Falava apenas o necessário. Não era mais aquele Isaac alegre, brincalhão, sorridente, que se encostava na minha mesa e ficava conversando. Quando entrava na redação, no meio da tarde, era saudado com um coro de “lá vem o Tigre! Lá vem o Tigre!” Ele ria e acenava. O Isaac era um ídolo para nós.

Quando ganhou uma secretária para ajudá-lo, o prazo de entrega se normalizou e voltamos a ser amigos. Ele ia trabalhar todo arrumado e cheiroso, como se fosse para uma festa. O cabelo era engomado e sempre cortado pelo rei da Tesoura, o Moacyr Carioca. Nas mãos, uma pilha de cartas, revistas e jornais. Nessa época, eu escrevia algumas notas para ajudar a terminar mais cedo a missão, que era de segunda a segunda. O homem não folgava. Vivia em função da coluna. Por isso não teve tempo de escrever o livro que havia planejado para comemorar três décadas de atividade profissional e se chamaria “30 anos de pato no tucupi”, um prato que, por sinal, ele adorava. Era uma referência ao livro “30 anos de caviar”, de seu amigo Ibrahin Sued. Em Belém, ninguém sobreviveria oferecendo caviar, ao longo de 30 anos.

Nos finais de semana, visitava os clubes, apresentava garota disso, garota daquilo. Fazia o Garota Belém e promovia, no seu querido Pará Clube, o tradicional Baile do Tigre, na época do carnaval. Adorava o Rainha das Rainhas. Domingo à tarde, estava no jornal, coitado, suado, cansado, às vezes meio bronzeado, escrevendo a coluna de segunda. De noite, comparecia às recepções e, não raro, representava o jornal em alguma solenidade. Nas festas do jornal, era sempre o orador. Se quisesse arrumar um inimigo, bastava propor-lhe um dia de folga. Para que folga? A coluna era o ar que respirava. Sem ela, morria.

Criador de jargões que o tempo apagou, como “moranguinho”, “tigresinha”, “uvinha”, usados antes do nome das meninas que iluminavam seu espaço, ou das madames que o paparicavam de todo jeito, ele, diferente de todo mundo, odiava tirar férias. Não era por nada, não. Tinha pavor que ninguém sentisse sua falta e fosse substituído na coluna. O máximo a que se permitia eram duas semanas no Copacabana Palace, onde se encontrava com Ibrahin Sued. Era o único jornalista paraense que podia sentar ao seu lado, na pérgula do Copa. Em vez de relaxar, de aproveitar o Rio, telefonava todo dia, às 17 horas, para saber se estava tudo bem com a coluna. Era um pai preocupado com a filha.

Quando a Varig criou um vôo para Portugal, um grupo de jornalistas ganhou BLT e foi para Lisboa na base do 0800. O Isaac estava na comitiva. No restaurante do hotel, sentiu-se tão à vontade, que chamou o garçom e pediu: “Tigre, me traga uma Cerpinha por favor”. O garçom não entendeu absolutamente nada. Tigre? Cerpinha? Esses descuidos eram a cara do Isaac.

Uma vez, atrapalhou-se com o nome de uma criança recém-nascida. Em vez de Leonardo, escreveu Leopardo. Quando leu o registro, o pai caiu na risada. A mãe ficou aborrecida, mas não resistiu e acabou achando graça. Ao ser questionado, explicou. “É Leopardo, sim. O pai é tigre e a mãe, pantera, só podia nascer um leopardo”. O pai era o “tigre” Bernardino Santos e a mãe, a “pantera” Vera Castro que, à época, eram casados. Típico do Isaac.

Na época das colações de grau, recebia convite de meia-Belém. Todo mundo queria ser notícia na coluna social mais lida do Liberal. Sempre que podia, não apenas divulgava o nome do colando, como ia a casa dele levar um abraço. Uma noite, errou o endereço e entrou numa festa bem humilde, numa casinha mais humilde ainda. Quando a família viu o Isaac Soares chegando, quase teve um troço. Como um colunista social, que só frequentava a alta roda, iria bater num lugar tão pobre? Foi tratado como um rei. Pouco depois, o motorista do jornal segredou-lhe que estava na festa errada. Alegando outros compromissos, abraçou todo mundo, fez foto (depois publicada) e foi embora para a festa certa, igualmente simples, numa casa também simples.

A imagem de homem que vivia cercado de luxos não podia ser mais falsa, quando associada à do Isaac e à de outros colunistas, como a Vera, o Pierre, o Ismaelino, o Adenirson, a Alda, a Rejane o Bernardino e o saudoso Edwaldo. Todos deram e ainda dão duro na vida. Nenhum é rico. De manhã cedo, ia ao Ver-o-Peso tomar mingau. O apartamento em morava era de classe média e foi comprado através de financiamento bancário. Vivia de seu salário e do rendimento de uma assessoria que lhe foi oferecida pela Assembléia Legislativa. Isaac era uma pessoa tão boa, tão simples, tão humilde, tão generosa, tão boa, de tal modo devotado à mãe, que nem parecia um homem. Às vezes, eu olhava para seu semblante cansado e me perguntava se, escondido em suas costas, não havia um par de asas. Isaac parecia um anjo. Um anjo judeu, que gostava de ver o Círio passar. Um judeu que preferiu frustrar o projeto de vida a dois, com o único e grande afeto de uma vida inteira, a amar outra mulher. Sua solteirice, motivada por diferenças de religião, foi a prova de amor mais bonita que uma criatura poderia receber. Se não fosse ela, cujo nome, me desculpem, prefiro não revelar, não seria ninguém. E não foi.

O pobre acreditava em tudo que lhe contavam. Uma vez, um colega muito sem-vergonha, que trabalhava conosco, passou semanas “namorando” o Tigre. Ele ligava todos os dias, na mesma hora, disfarçando a voz. Dizia coisas bonitas, que o deixavam feliz e envaidecido. Envergonhado da molecagem, se despediu e nunca mais ligou. O Isaac nunca soube dessa presepada. Apostava no jogo do bicho todos os dias e, de quando em quando, ganhava um dinheirinho. Judeu, ia à Sinagoga regularmente e adorava carne de porco, o que é vetado em sua crença. Se, em algum evento, houvesse porco, ele se servia e dizia com a maior cara de pau: “este carneiro está uma delícia!”

Por muitos anos trabalhamos juntos. Quando o jornalista Romulo Maiorana morreu, o cerimonial do jornal ficou dividido. Eu recebia as visitas, pela manhã, e ele ia ao eventos noturnos. Era tanta coisa, tanto lugar para comparecer, que eventualmente íamos e voltávamos juntos, à noite, no mesmo carro. Quando o jornal se mudou para o novo prédio, eu já não estava mais lá, mas muitas vezes fui visitá-lo. Cada vez mais o encontrava alquebrado, cansado, triste. Rose Ferreira, sua fiel escudeira, amiga querida, secretária e anjo da guarda, escrevia a coluna. Todos os dias estava ao lado dela, olhar perdido, mas estava. Quando morreu, depois de quase duas semanas internado, o jornal cobriu o espaço da coluna de preto. Ficamos todos de luto e cheios de saudade.

A melhor definição que ouvi sobre meu querido Isaac Soares foi dada pela nossa colega e chefe Ana Diniz. Uma noite, estávamos na Redação, conversando, enquanto ele lutava para finalizar a coluna e ela me perguntou: “João, tu sabes que o Isaac é uma criatura que não tem esgoto, não sabes?” Eu não sabia o que isso significava. “Ele é um homem puro, não tem sujeira. Por isso não precisa de esgoto”.

O Isaac Soares era isso mesmo: um homem puro.


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Alex Vallauri — Coluna, 1982. Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras

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