A rasga-mortalha e o pássaro Roca: entre o medo e a fantasia

Diário de um desespero – ou quase – LXI

João Carlos Pereira

Dos cinco tipos de barulho que agridem os meus ouvidos e esgarçam os nervos já em frangalhos, um pelo menos caiu em desuso, mas, só de pensar nele, revivo-o com tanta nitidez, que parece ter sido produzido neste exato instante: o do giz riscando o quadro. Quando comecei a dar aulas, ele era negro. Depois virou verde. Hoje é branco e não há mais giz, mas pincel atômico ou caneta. Naquele tempo, eu me sujava todo com pó. Para piorar, me esquecia, passava na roupa, no rosto, ficava igual um doido. Sempre fui desastrado.

Tirando o giz, que nem sei se ainda existe, restaram o barulho da faca que escapava do bife e arranhava o prato; o da broca do dentista a caminho do dente e agindo nele; o da motosserra podando árvores, especialmente nas manhãs de domingo, no quarteirão de casa, e, o pior de todos, o da escápula de rede rangendo. Quando o atrito é apenas o da peça presa na parede fica mais fácil passar óleo de cozinha, uma vez que o famoso Singer sumiu. Se ainda existir o antiquíssimo S de ferro, usado para diminuir um pouco a altura, aí o barulho é pior.

O rec-rec-rec da rede é algo enlouquecedor. Deve fazer parte do protocolo da tortura chinesa. Não creio que haja alguém que sinta o mínimo prazer de se embalar, com a rede rangendo, feito uma sofredora, alma penada arrastando correntes. Para quem mora em apartamento, a coisa aumenta de proporção, porque parece que vai bater direto no ouvido do vizinho. Para evitar problemas com pessoas de quem tanto gosto e com as quais convivo, fraterna e respeitosamente, há quase vinte anos, redobro meus cuidados, na hora em que a chiadeira começa.

Uma vez, porém, fora daqui, minha rede rangeu e, por causa do frio no lugar onde eu estava, se não ousava me mexer e mudar de posição era um sacrifício, imagine levantar para buscar óleo. Julgando que o morador do andar de cima não estivesse no prédio e, como o sono custasse a chegar, me danei a me embalar. No dia seguinte, pelas dez da manhã, a campainha tocou e o tal vizinho entrou no apartamento, soltando fumaça pelo nariz – ou pelas ventas – , como se falava antigamente. Disse que não havia conseguido pregar o olho, porque um barulho estranho o incomodou a noite toda. Olha o mentiroso….

Comecei a perceber a confusão, ao longe, no quarto, me embalando. O homem só podia ser doido, porque fui me deitar cedo e não fiz um movimento, quanto mais me embalar a noite toda, como alegava. A criatura morava na Suíça e era um tanto noiada. Graças a Deus nunca havia ouvido falar em rede em apartamento e, portanto, não suspeitaria da origem do barulho. Para ele, havia alguma ave escondida por ali. Como o andar acima do dele estava fechado, a “ave” só poderia ser nossa.

O diabo do homem falou, falou, falou e, quando foi convidado a revirar, sozinho, o apartamento, a fim de ver se havia mesmo uma ave rangedora no pedaço, se despediu cordialmente, avisando que caçaria o bicho aonde quer que ela estivesse, naquele edifício. Parecia cena de filme. Enquanto prometia visitar todos os apartamentos, sabe Deus em busca de quê, eu só faltava me espocar de rir, com a rede paradinha. Mal a porta se fechou, foi uma gargalhada geral. Tratei de azeitar o armador e, à noite, me embalei feito um danado, mesmo no frio.

Me lembrei desse incidente, não em Antares, mas na comarca da Sertã, em Portugal, porque ontem minha rede começou a piar. Faltava azeitar a atracação. Instalado o modo silêncio no ambiente, voltei para o meu sossego e fiquei imaginando que tipo de ave poderia fazer barulho semelhante ao de rede. Como minha cabeça é território fértil, o pensamento voltou logo para a infância, tempo em que eu ouvia histórias sobre o Pássaro Roca e a Rasga-Mortalha.

A Rasga-Mortalha é uma espécie de coruja da Amazônia, de voo baixo, que passa crocitando pelos ares. O povo do interior tem pavor de seu grito agourento, tido como aviso de que alguém vai morrer. Apavorado como eu era, fugia do som da morte, pronunciado pelo bico da ave de que mais gosto, porque pensava logo no passamento sofrido da minha mãe, mas não temia o Pássaro Roca. Tinha tanto pânico de sua morte, que não deixava chinelo revirado de forma alguma. Isso também era prenúncio de morte. Ah! guarda-chuva aberto dentro de casa também dava azar e atraía velório de ente querido. No caso, o da minha mãe. Era fixação no tema e no defunto.

Uma criatura que cresceu em meio a tantas superstições não poderia escapar da fragilidade emocional e da culpa. Eu trazia o peso das desgraças familiares todinho nas costas. E se deixasse a Havaiana virada? Seria eternamente culpado pela morte da minha mãe ou do meu pai. Eu só conseguia imaginar o julgamento severo de Deus, que chegava com a sentença transitada em julgado. O castigo era o sofrimento em vida, seguido do inferno, após morte violenta, primeira parte da vingança divina contra uma criança que, sem querer, largou a chinela emborcada. Que Deus era esse que me ensinaram a temer e não a amar, meu Deus? Aquela maldita expressão “Deus castiga” não saía dos meus ouvidos. Ainda bem que, na maturidade, aprendi que isso não existe. Mas custou….

Muitas vezes a Rasga-Mortalha deve ter passado e não percebi seu recado. Morreram meu pai, minhas tias, meus tios, dois primos, pessoas amigas, duas especialmente muito amadas, minha mãe e toda a gente que partilhava do destino comum de todos nós: o fim da existência. A Rasga-Mortalha é mesmo eficiente e faz o serviço direitinho.

Quando morei perto da Doca, uma linda corujinha de penas café-com-leite passava primeiro em casa, antes de seguir à procura do jantar, normalmente escondido debaixo das pontes da avenida, em busca de ratos. Eu acompanhava seu voo solitário pela noite e as rasantes que dava, das quais voltava, invariavelmente, com algo preso ao bico. Talvez fosse simplesmente uma coruja do bem e não uma Rasga-Mortalha.

O Pássaro Roca era muito mais terrível e perigoso do que qualquer outra ave, simplesmente porque habitava minha imaginação. Soube de sua existência, primeiro pela mesma voz que me falou da menina dos fósforos e só fui conhecê-lo, de verdade, quando li as aventuras de Simbad, o Marujo, personagem das histórias das Mil e Uma Noites. Somente um homem corajoso, cabra-macho, como Simbad para encarar o Pássaro Roca, um ser mitológico, tão forte, tão agressivo, capaz de afundar um navio usando a ponta do bico ou de atracar um elefante com as garras e levá-lo para o espaço. Como não havia elefantas na minha infância, o Pássaro Roca não me assombrava tanto como a Rasga-Mortalha. Para mim, ele até podia existir e ser predador, mas morava muito longe para se constituir numa ameaça.

Quando minha filha mais velha era bem criança, ela também gostava de ouvir histórias. Muitas vezes, a embalei, contando as aventuras que lia nos “Lusíadas”, como a do Gigante Adamastor, a Batalha de Ourique e, a mais linda de todas, a do amor de D. Inês pelo Príncipe D. Pedro. Já mais taludinha, soube da existência da Jurupoca, uma criatura de um olho só, vermelho, no meio da testa. A Jurupoca era tão feia, que vivia escondida no alto dos prédios, só reparando as crianças que não queriam comer ou dormir. Mal a noite caía, ela ia para a sacada espiar as jurupocas e corria para a sala, morrendo de medo. O tempo passou e descobriu, sozinha, que a tão ameaçadora entidade do mal eram antenas de para-raios, com uma lâmpada vermelha na ponta. De uma hora para outra, a coragem brotou-lhe tão fortemente, que até desafiava as Jurupocas piadeiras.

No prédio ao lado do nosso, o aqui já citado vizinhozinho, que, sem ajuda de ninguém, repaginou e ajardinou sua sacada, deixa a rede atada e, de vez em quando, com celular na mão, se embala, como se estivesse numa viagem deliciosa, a bordo de uma embarcação branquinha, com varandas trabalhadas. Isso acontece com todos que gostam de rede. Acho mesmo que rede foi feita para embalar os sonhos, não o corpo.

Não fico vigiando a rotina de ninguém, mas da janela da cozinha também vejo a vida que passa lá fora. Se a sua rede range não sei, porque não consigo escutar, mesmo no silêncio da rua vazia, o terrível barulho que, felizmente, não há.

Por precaução, para evitar que a rede comece a perturbar a paz alheia em horas impróprias – e a minha, sobretudo – deixo um pires com óleo num cantinho e, assim que começa a gemer, não há desculpa para a preguiça. Com duas pinceladas, mato a parada.

Ah! se tudo fosse fácil de resolver, como esse pequeno e incômodo problema doméstico….


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Ligia de Medeiros — Rede na Rede

Crônica

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