O céu de Belém e o sonho real

Diário de um desespero – ou quase – LIX

João Carlos Pereira

O céu de Belém é uma coisa impressionante. Nunca se vê nada nele, tirando as estrelas e, é claro, a lua. Quando não é a poluição, são as nuvens, as muitas nuvens que fecham a paisagem. Isso, pelo menos, para as minhas bandas. Pelo lado da Doca não é tanto assim, mas também não é a coisa mais descortinada do universo.

Em noites normais, gostava de ir à sacada e, às vezes, conseguia apreciar as constelações. De todas visíveis, a do Cruzeiro do Sul é a que mais amo, seguida das Três Marias. Nem imagino quem deu nome às estrelas, mas com certeza foi alguém de alma delicada. Se essa não é a nomenclatura oficial das constelações, perdoai. Aprendi a amá-las desse jeito.

No meu tempo de menino, víamos muitas estrelas. Por muito tempo deixei de percebê-las, até que, numa noite maravilhosa, em Recife, na Boa Viagem, tive a impressão de que todas apareceram ao mesmo tempo, para compor um cenário deslumbrante. Foi nesse momento que passei a sentir a cumplicidade das estrelas.

Era verão e o céu de Portugal parecia a “noite estrelada” de Van Gogh. Eu dirigia feliz, de volta para casa, quando reparei no alto uma constelação linda, que conhecia apenas de ouvir falar. Era a Ursa Maior. Curioso como coloquei os olhos nela e tive a nítida certeza de que se tratava de uma grande ursa com seu filhotinho. Viver no sonho, na ilusão, na poesia produz esses efeitos.

Quem ama o céu, só pode ter um pezinho na poesia.

Sinto saudade das estrelas, porque elas passaram a fazer parte da minha felicidade. Minha filha mais nova, quando era pequena, sentava no meu colo e me ensinava coisas maravilhosas sobre o céu. Uma noite, ela me disse: “você sabia que existe uma estrela bem grande, com uma bolsa na barriga, e, antes de amanhecer, vai recolhendo todas as outras para soltar na outra noite?”. Duvido que essa teoria seja contestada por qualquer astrônomo, porque, quem ama o céu, só pode ter um pezinho na poesia.

Fayga Ostrower, a maior gravurista do Brasil, me disse, uma vez, que estava num local, acho que nos Estados Unidos, onde havia vários eventos. Ela participava de um sobre arte e, na hora do cafezinho, um cientista, olhando seu crachá, identificou-a como oriunda do Brasil, como ele, que assistia a um encontro promovido pela Nasa. Conversa vai, conversa vem, disse que não conseguia entender nada da pintura de Picasso. O comentário tinha razão porque, no mesmo centro de convenções, havia uma retrospectiva da fase azul do pintor.

No final do dia, Fayga se dispôs a mostrar-lhe a dimensão da beleza de Pablo Picasso e o homem ficou encantado. Na hora, deslumbrado com a capacidade de definir a abstração e de sua percepção do universo, ofereceu-lhe um emprego na agência especial americana. A artista riu e, educadamente, disse que preferia continuar trabalhando com arte. A ciência dos astros não deve (ou deveria) ser tão precisa assim.

O céu de Belém poderia ser mais camarada. Não falo nem mais por mim, mas pela memória do maestro Waldemar Henrique estava ansioso, em 1986, para ver o cometa de Halley passar, pela segunda vez, e não conseguiu.

Aliás, quem conseguiu?


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Fayga Ostrower — Composição abstrata, c. 1950.

Crônica

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