Novos tempos, novas vontades, outro valores de vida

Diário de um desespero – ou quase – LV

João Carlos Pereira

É impressionante como algumas coisas perdem ou ganham importância, com inacreditável velocidade, quando, como diria o Camões, “um valor mais alto se alevanta”. Até janeiro, eu estava com uma viagem desenhadinha para Portugal, onde seríamos padrinhos de um casamento. Logo que terminassem os festejos, que lá começam com um café da manhã na casa da noiva e se prolongam por mais três dias, apenas com o que sobrou da festança (pensa num lugar onde comida é farta e vinho não falta!) e o bolo é congelado para nova comemoração, um ano depois, haveria uma romaria de visitas. Depois, o tour se ampliaria por mais dois países. Naquela época, minha única preocupação era a cotação do Euro, que não parava de subir.

Na verdade, não havia apenas atenção com a moeda europeia, mas também com o dólar, porque a passagem é vendida em verdinhas. Eu dormia e acordava olhando os indicadores, fazia contas e mais contas, olhava obsessivamente sites de vendas de passagens, para ver se a empresa havia endoidado por alguns minutos, como já tem acontecido, e reduzido o valor da poltrona. Nada disso acontecia.

Como não costumo perturbar Nossa Senhora de Nazaré com questões muito terrenas, deixei-a de fora dessa agonia e acionei o módulo confiança. Se fosse para ir, iríamos. Se não fosse, ficaríamos. As coisas, na minha vida, quando têm de acontecer, não ficam soltas no ar.

Acho que já contei aqui, mas não custa repetir, sobre uma vontade louca de ir a Lourdes. A grana estava curta e ir de Paris até lá pode ser barato ou caro, dependendo da época em que se compre a passagem. Na ocasião, estava caro, muito caro e a esticada de um dia até a cidade onde Nossa Senhora apareceu à Bernadette parecia inviabilizada. Pois eis que, numa noite, fazendo uma pesquisa sobre a “belle epoque” francesa, um site me direcionou até outro, que mandou para um terceiro e foi a um quarto, onde havia informações sobre os 150 anos da primeira aparição da Senhora.

De repente, uma ventania revirou um monte de papeis em meu escritório e, ”por acaso”, um deles pousou suavemente sobre a mesa. Era um folheto da cidade de Lourdes. Encerrei o trabalho, achando aquilo muito estranho. Nem me dei conta de que, quando Nossa Senhora se anunciava para Bernadette, um vento também soprava. Antes de me deitar, passei os olhos numa das estantes e encontrei um livro que há tempos não via e nem deveria estar ali. Ou deveria? Folheei-o, como quem matava saudades, e achei, preso à folha de rosto, um cheque, esquecido sabe Deus a razão, com o valor exato, preciso, das passagens. Devo dizer que se tratava de um sinal? É claro que fomos a Lourdes.

Esse tipo de coisa acontece na minha vida com impressionante frequência, seja para viajar, seja para ficar. Uma vez, estava todo animado para ir a Praga. Tinha tudo marcado: hotel, passagem, passeios programados e, de repente, me deu um aperto tão forte no peito, que peguei o metrô e fui até o aeroporto desmarcar . Nesse dia, lembro bem, encontrei com Nalva e Avertano-Rocha, mais os filhos, tentado resolver um dos muitos atrapalhos a que as empresas nos submetem. Minha mulher não entendeu nada, mas aceitou. Alguma coisa me dizia que deveríamos ir embora de Paris, da minha amada Paris, de onde não desejo, em circunstâncias normais, jamais sair, e voltar para Portugal. Foi questão de pagar uma diferença, arrumar as malas e viajar.

A sensação de alívio por haver dado crédito à minha intuição só não foi maior do que a alegria de me sentir seguro em Lisboa. Dias depois, sem entender absolutamente nada, vi a notícia de que a companhia onde havia comparado as passagens estava começando uma greve e que os voos para Praga estavam cancelados. O nosso, inclusive. O que servia para a República Tcheca, valia para o trecho Paris-Lisboa. Que tal?

Como as moedas não paravam de subir, eu me sentia cada vez mais aperreado. A esperança era que, passadas as incertezas provocadas pelo governo e mais a crise dos Estados Unidos com a China, tudo se normalizasse. De fato o euro começou a cair, mas veio outro vento e ele disparou. A viagem, que seria pura alegria, começou a se transformar em pesadelo. Por fora, como sempre, eu era a calma personificada. Por dentro, o vulcão lançava sinais de que entraria em erupção.

Os primeiros sinais da pandemia apareceram depois do carnaval. Ninguém suspeitava que o vírus mortal se alastraria pelo mundo. A província chinesa de Wuhan parecia longe demais para o bicho fugir e aparecer por aqui. Era ilusão. Ele dançou o carnaval no Rio, São Paulo, Fortaleza, Recife, em todo canto que os turistas adoram e por lá ficou. Depois, foi só pegar voos domésticos e se espalhou. Agora, de clandestino encubado da folia, virou o rei da desgraceira. Tirou a máscara e nos obrigou a usá-la.

Com o perigo se aproximando, com as fronteiras sendo fechadas, o Willian Bonner começou a escrever e a apresentar o novo apocalipse. Dia após dia, o Jornal Nacional passou a mostrar o quanto o Brasil era vulnerável. Enquanto o presidente falava em gripezinha, a ciência mostrava o contrário. O resultado é o que se vê: quase mil mortos todos os dias e o Brasil está se aproximando do pódio da vergonha. Enquanto isso, a crise política, em Brasília, ganha músculos. Nós estamos muito bem servidos de governo e de corona vírus.

O que até dois meses era um problemão para mim, hoje virou não apenas virou esquecimento, como alívio. Claro que me importo que o euro tenha passado dos seis reais e caminhe para os sete, sem que veja obstáculos no percurso. O dólar segue em seus calcanhares e eu faço cara de paisagem. Esse é um assunto que não existe mais entre os que me preocupavam. Nem que dólar e euro despencassem, eu não meteria meus pés num avião. E se me dessem passagem em classe executiva? Desse susto não morro. Primeiro, que não conheço ninguém com tamanha generosidade. Segundo, se acontecesse, não iria. A Europa está riscada dos meus planos até, pelo menos, haver total segurança.

Assim como outro valor (que não é apenas o do câmbio) se “alevantou”, novos surgiram no horizonte e me fizeram realinhar a vida. A maior de todas as lições, depois da solidariedade, tem sido o silêncio.

Quanto mais estiver calado, metido comigo mesmo, com minha dor, com meus medos (sobretudo o de morrer e deixar meus trabalhos incompletos), minhas inseguranças e minha solidão, melhor me sinto.

Quanto ao euro e ao dólar, espero apenas que não atrapalhem muito a economia do Brasil. Agora, eles não me fazem a menor falta, nem consomem meus planos. Meu único plano, agora, é continuar vivo e sem corona vírus circulando no meu corpo.


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Ivald Granatoo — O Menino vê o Avião, 1985.

Crônica

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