O Reino de Deus está no meio de nós

Joana Eleuthério

O que nos impede ver que esse Reino é de Amor e Misericórdia?

Depois do episódio narrado no capítulo 17, do Evangelho de Lucas, sobre a cura dos dez leprosos quando só um estrangeiro voltou para agradecer a Jesus, que então lhe perguntou:
Mas não eram dez, onde estão os outros nove?

Em seguida Jesus olhou para o samaritano caído aos seus pés dando-lhe graças, por ver sua pele totalmente limpa. Jesus abaixou-se e pegou as mãos do homem e olhando nos seus olhos, abençoou-o, dizendo-lhe:
Levante-se, vai para junto de sua família – a sua fé salvou você.

Jesus disse isso em alta voz, ele sabia muito bem que os dez estavam todos curados da lepra. Certamente, quis fazer uma distinção sutil entre a salvação e a cura (física apenas) para que a pequena multidão que o seguia desde a Galileia rumo à Jerusalém, pudesse ouvir o que ele dizia. Afinal, nos dias anteriores, ao longo da caminhada em direção àquela grande cidade, muito se falou sobre o Reino de Deus, sobre o seguimento e a salvação – temas dos muitos diálogos e de muitas perguntas – as famosas ‘pegadinhas’ dos fariseus visando expor Jesus.

Nesse dia, eles não perderam tempo e perguntaram a Jesus sobre o momento em que o Reino de Deus chegaria? Jesus então explicou-lhes que o Reino de Deus não vem ostensivamente e que, na verdade, ele já está no meio de nós, ou, dependendo da tradução, está dentro de nós, entre nós…

«Ao contrário do que poderíamos esperar e talvez desejaríamos, o Reino de Deus, agora como então, não vem com ostentação, mas, na pequenez, na humildade.» Foi o que nos disse o Papa Francisco na Polônia, durante a Jornada Mundial da Juventude em 2016, em uma explicação muito semelhante às palavras de Jesus. O papa ainda acrescentou que «Deus nos salva, pois, fazendo-se pequeno, próximo e concreto, prefere os pequeninos, a quem foi revelado o Reino de Deus. Prefere-os porque se opõem à soberba da vida.»

Na humilde condição de estrangeiro, ao ser capaz de demonstrar gratidão, o samaritano experimentou o Reino de Deus, quando se viu com a pele totalmente limpa e foi salvo pelas palavras de Jesus, podendo levar essa sublime experiência para dentro de sua casa e revivê-la junto aos seus familiares.

Eventualmente, e não muito diferente dos fariseus, também nós nos pegamos fazendo questionamentos muito semelhantes aos dos fariseus. O que é lamentável. E por que não percebemos o Reino já entre nós – nas nossas famílias, comunidades, em nossa nação?

Jesus nos deu muitas pistas por meio de palavras e gestos, nos acontecimentos, nas circunstâncias e na trajetória humana, em todo lugar onde ele estivesse presente, desde o primeiro sinal narrado no Evangelho de João.  As bodas de Caná nos mostraram a mãe de Jesus preocupada em ajudar a família anfitriã, que logo se veria em dificuldade porque o vinho estava acabando. Jesus, muito discretamente, depois de receber o toque de sua mãe, vai prontamente resolver o problema para que a alegria da festa se prolongasse.

O papa Francisco, nesse mesmo evento citado acima, também nos recorda a transformação da água em vinho durante as Bodas de Caná, dizendo-nos que não foi um gesto gigantesco realizado por Jesus. Muito diferente disso, foi um milagre simples sem nenhuma plateia, apenas para alegrar as núpcias de uma jovem família, totalmente anônima. Francisco enfatiza: foi um pequeno milagre, a nos mostrar que

«O Senhor não se mantém à distância, mas é próximo e concreto, está no meio de nós e cuida de nós, sem decidir por nós e sem se ocupar de questões de poder. Jesus sempre prefere abrigar-se no pequeno, ao contrário dos seres humanos, que tendem a querer algo sempre maior.
Ser atraídos pelo poder, pela grandeza e pela visibilidade é algo tragicamente humano, e é uma grande tentação que busca se infiltrar em todos os lugares; ao contrário, doar-se aos demais, rompendo distâncias, vivendo na pequenez e preenchendo concretamente o cotidiano, isto é requintadamente divino

Jesus ensinou-nos que o Reino de Deus está no meio de nós quando as nossas relações são pautadas pelo interesse e cuidado respeitoso, como vimos em sua amizade com os irmãos da cidade de Betânia na casa harmoniosa e acolhedora dos seus três amigos Marta, Maria e Lázaro. Isso também fica muito claro no evento da Multiplicação dos Pães (João 6:5-15 e também nos sinóticos Mateus 14:13-21, Marcos 6:31-44 e Lucas 9:10-17), quando Jesus preocupou-se com a multidão faminta que o seguia, ensinando aos seus discípulos e todos nós que a fome será eliminada sempre que houver partilha. O lanche, que alguns poucos traziam consigo, ao ser partilhado, alimentou a todos e ainda sobraram algumas cestas.

O levantamento completo desse ensinamento de Jesus seria imenso, mas algumas palavras de quando se despedia dos apóstolos não podem ficar esquecidas: “Dou a vocês um novo mandamento: amem-se uns aos outros como eu tenho amado a todos vocês. Nisso é que conhecerão todos vocês são meus discípulos.” (João 13,34-35)

Antes disso, temos tantas palavras de Jesus alertando sobre a nossa responsabilidade de suas seguidoras e de seus seguidores na construção do Reino no meio de nós, como:
— “Busquem primeiro o reino de Deus e a sua justiça e todas as outras coisas lhes serão dadas por acréscimo” (Mateus 6:33).
— “O Reino de Deus é semelhante ao fermento que uma mulher pega e mistura com três medidas de farinha, até que toda a massa fique fermentada” (Lucas 13,21).

Assim, temos Pagola que nos diz:
«Temos de voltar a ler as pequenas parábolas em que Jesus deixa claro que a tarefa dos seus seguidores não é construir uma religião poderosa, mas colocar-se a serviço do projeto humanizador do Pai – o reino de Deus – semeando pequenas ‘sementes’ de Evangelho e introduzindo-as na sociedade como pequeno ‘fermento’ de uma vida humana. […] Não somos capazes de captar o lento crescimento do reino de Deus. […] Temos de confiar em Jesus. O reino de Deus sempre é algo humilde e pequeno nos seus inícios, mas Deus está já a trabalhar entre nós promovendo a solidariedade, o desejo de verdade e de justiça, a ânsia de um mundo mais ditoso. Temos de colaborar com Ele seguindo Jesus.»

Na última terça-feira, encontramos com Zaqueu em Lucas (19, 1-10). Uma história bonita de quem de longe devia seguir Jesus, mas sem jeito de aproximar-se porque era malvisto, como chefe dos publicanos, considerado um grande pecador pela sociedade. Sabendo que Jesus iria passar pelos arredores, saiu rapidamente de seu posto de trabalho e antes que chegasse muita gente subiu a uma figueira. Era de pequena estatura e, se não fizesse isso, não conseguiria ver Jesus. Meio envergonhado, com o coração acelerado observava Jesus se aproximando… De repente, Jesus para bem debaixo da árvore e olha pra cima e chama Zaqueu dizendo-lhe: ‘Desce depressa daí que hoje eu preciso me hospedar em sua casa.’ O pequeno homem, cheio de alegria, escorregou-se imediatamente para o chão. Sob os olhares recriminadores e comentários maldosos e comuns como o de que Jesus gostava de se juntar a pessoas de má fama, eles seguem para a casa de Zaqueu, que diz a Jesus: “Senhor, vou dar aos pobres metade dos meus bens e, se causei qualquer prejuízo a alguém, restituirei quatro vezes mais.” Penso que o coração de Zaqueu devia estar inquieto fazia tempo, apenas esperando essa oportunidade para comprometer-se com o Reino de Deus. Ele compreendeu, antes do que muitos de nós, que o Reino de Deus está dentro de nós e entre nós, dependendo de nossa conversão e da nossa vontade de ajudar a construí-lo. Os dois homens estavam muito alegres ceando juntos no ‘Reino de Deus’, que era a casa de Zaqueu naquela noite.

Hoje, tive o privilégio de conhecer o Frei Carlos Mesters em uma palestra, que embora o tema não fosse exatamente o Reino de Deus, ele nos mostrou que Jesus, ao não colocar em primeiro lugar a lei e a tradição, revelou o Reino para nós. Disse-nos que, como Jesus revelou o Reino de Deus para nós, nós também podemos e devemos fazer o mesmo para outras pessoas. Se observarmos a gratuidade de Deus, seremos capazes de perceber que o Reino de Deus está no meio de nós:  ao perdoarmos alguém verdadeiramente a ponto de ser capaz de acolher e cuidar dessa pessoa quando ela adoece, por exemplo. Contou ainda que foi participar de um evento em uma comunidade bem simples, provavelmente em uma zona rural. Ele sentou-se e logo chegou uma senhora empurrando um carrinho com uma criança toda torta, deformada, bem pequena como um bebê, que se sentou na cadeira ao lado. O frei começou a conversar com a ela e perguntou se era seu filho e ela respondeu que sim. Então perguntou pela idade e a mãe respondeu: vinte e um anos. Carlos Mesters perguntou-lhe se ela cuidava dele sozinha e ela sorrindo disse: “Com todo amor.” O frei disse que saiu dali com a certeza de que esteve sentado ao lado de uma santa.

Esse tema veio martelando em minha cabeça e em meu coração há dias – tempo em que refleti, rezei e meditei bastante sobre o Reino de Deus entre nós. De um trecho do evangelho, a outro e outros … Hoje minha longa e solitária oração virou este texto. Sou grata pelo meu tempo, meu espaço, minha solidão, minhas ferramentas e meu desejo – dom e luz que me provocam e me possibilitam fazer isso para poder colocar à disposição de outras pessoas que queiram continuar e concluir a minha oração.

Amém.

Brasília, 23 de novembro de 2019.


Joana Eleuthério é graduada em Letras. servidora pública aposentada da Secretaria de Estado de Planejamento, Orçamento e Gestão do Distrito Federal.

Imagem: Portinari – As bodas de Caná, painel, 1956-1957.

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Caminhante sem nenhuma linearidade e com variados interesses.

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