Rezando a Sabedoria e a Fé

Joana Eleuthério

Quem puder entender, entenda.

Mateus 19,12

“Junto a ele estava eu como artífice, [uma criança] brincando todo o tempo diante dele, brincando sobre o globo de sua terra, achando as minhas delícias junto aos filhos dos homens. E agora, meus filhos, escutai-me: felizes aqueles que guardam os meus caminhos.” (Provérbios 8, 30-32)

O caminho da oração, por vezes, pode se mostrar fatigante, quando o diálogo fica pouco claro ou parece não fluir porque o nosso coração e a nossa mente permanecem acelerados em uma dispersão alucinante. Na maioria das vezes, o que ocorre é que o cansaço do mundo e da vida nos deixa exaustas/exaustos, sem paciência e sem a maravilhosa capacidade de nos aquietarmos para saborear os melhores momentos de nossa vida. Naturalmente o tempo, tanto em quantidade como em qualidade, fica muito longe daquilo que move os bons caminhantes. Por vezes, a impaciência nesses pequenos instantes da vida é pelo fato de experimentarmos a sensação de que a nossa oração não está correspondendo a urgência e a imediatez das nossas esperas humanas.

Sempre é bom refletir sobre a oração e o significado dessa ‘paradinha’ diante do Pai. Como já foi dito, a oração

É uma relação pessoal, trabalhosa como todas as relações pessoais, com altos e baixos, com dias luminosos e dias cinzentos. A tal ponto que, com frequência, te sentes só, como se Deus se tivesse ausentado para uma parte incerta. Rezar põe à prova a tua fé e a tua esperança. (Passo a rezar)

Nestes últimos dias, o texto evangélico da liturgia narrou mais um improdutivo diálogo de Jesus com os fariseus nos primeiros versículos de Mateus (19). Já no finalzinho da conversa, Jesus deu-lhes um bom recado, talvez já estivesse meio cansado de suas práticas e seus julgamentos, sempre criando ocasiões para colocá-Lo à prova. Então Jesus encerra a conversa deles com esta pequena frase, de claríssima intenção: “Quem puder entender, entenda.” (Mateus 19, 12)

O que me chama a atenção é que o texto de Mateus continua com um relato muito leve, quase um poema bíblico (Mateus 19,13-15):

Quando Jesus estava saindo, algumas criancinhas
foram levadas até Ele para que pusesse as mãos
sobre elas e as abençoasse.

— Os discípulos tentavam afastá-las…

Mas Jesus disse-lhes: “Deixem estas criancinhas
chegarem até mim. Não as impeçam, porque
o Reino dos Céus é para aqueles que são como elas.
Carinhosamente, Ele impôs as mãos sobre elas
 e as abençoou. Depois, Jesus continuou seu caminho.”

Fico pensando que o que nos falta é a sabedoria das crianças: “Em verdade vos digo: todo aquele/aquela que não receber o Reino de Deus com a mentalidade de uma criança, nele não entrará” (Marcos 10, 15). Gosto muito da Sabedoria do livro do Eclesiástico:

“Sou a mãe do puro amor, do temor (a Deus), da ciência e da santa esperança, em mim se acha toda a graça do caminho e da verdade, em mim toda a esperança da vida e da virtude. Vinde a mim todos os que me desejais com ardor, e enchei-vos de meus frutos.” (Eclesiástico, 24, 24-25)

Nos últimos dias, com alguns trabalhos de revisão de texto que estou fazendo, além de uma outra atividade, que também demanda tempo e muita atenção, apesar de ser tudo feito em casa pelo computador, comecei a sentir-me agoniada e receosa e não conseguir cumprir os prazos acordados. Assim, comecei a fazer minhas orações de forma apressada, ficando sem fazer o meu texto orante por mais de duas semanas, hoje me peguei extremamente cansada, quase irritada. Então me lembrei que esta é uma atividade que não me cansa e até me conforta e descansa – um oásis na secura deste deserto que, por vezes, me possui.

Guardei tudo – livros e toda a papelada e me aquietei e comecei a rezar lendo e escrevendo como gosto de fazer, com pausas de silenciamento para não me empolgar com a primeira ideia que surgisse. Lembrei-me do meu pedido ao Espírito Santo, antes de levar a sério essa minha escritura orante, quando pedi luz, discernimento e a honestidade necessária para que eu pudesse fazer a minha oração de forma cuidadosa e que ela se transformasse em algo bom que eu pudesse oferecer para outras pessoas, que poderiam compartilhar da minha oração textual orante. Como é preciso compreender o cenário da vida, que é bem maior do que a própria escrita…

José Antonio Pagola, fez um belo texto para a festa da Anunciação, quando ele comenta estas palavras de Jesus: “Eu vim para lançar fogo sobre a terra: e como gostaria que já estivesse aceso! […] Embora a fé cristã pareça extinguir-se hoje entre nós, o fogo trazido por Jesus ao mundo continua a arder sob as cinzas. Não podemos deixar que se apague. Sem fogo no coração, não é possível seguir Jesus.”

Assim, nesse momento, só tenho a agradecer por tamanha bondade nesse acolhimento amoroso e incondicional do Deus Trindade, que hoje experimentei mais uma vez. Amanhã retomo as minhas atividades cedo e tudo irá bem, tenho esta esperança e esta certeza. Finalizo minha oração pedindo a graça de não vacilar na fé e nem abandonar as virtudes da sabedoria, esperança e da caridade.

Amém!

Brasília (DF), 16 de agosto de 2019.


Imagem: Portinari, 1960. Crianças brincando.

Espiritualidade

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Caminhante sem nenhuma linearidade e com variados interesses.

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